domingo, 13 de maio de 2018

Ser mãe

     A maternidade deveria ser uma escolha e deveria existir uma qualquer entidade suprema que a validasse.
    Há mulheres que são mães apenas por acaso e há acasos que levam as mães a fazer escolhas. Hoje, tropecei nesta notícia e penso no acaso que transformou esta mulher numa mãe pouco convencional. Pensando na decisão que teve de tomar (provavelmente das mais difíceis da sua vida) e nas circunstâncias em que deu à luz uma criança, considero que ela fez a escolha pelo filho, privando-se da sua presença, pensando naquilo que poderia ser melhor para ele. Poderá haver outras leituras para o seu gesto. Alguém poderá pensar que lhe faltou coragem para o criar e enfrentar os desafios que a sua sociedade lhe ia colocar. Prefiro pensar que lucidamente pesou prós e contras e que, pensando no filho enquanto pessoa, se privou de viver a maternidade de uma forma mais convencional, optando  por procurar proporcionar ao filho uma vida mais feliz. Certamente terá tido também a lucidez de que se privaria a si de muitos momentos difíceis, mas o sorriso, ao mesmo tempo contido e emocionado, com que aparece na fotografia leva-me a acreditar que foi a felicidade do filho que a levou à decisão pela adoção. O sorriso é a prova de que o seu gesto - arriscado, de abnegação, de medo? - valeu a pena.  A recompensa e o desejo de o ver feliz chegaram muitos anos depois. A vida tem muitas vezes formas de nos supreender.



                                                                         daqui




sexta-feira, 11 de maio de 2018

(des)equíbrios imperfeitos

 1
 A vida acontece a partir de pequenos nadas, alheia a decisões, regras e planeamentos. Passos e decisões aleatórias, que acontecem na sequência de pequenos impulsos, podem, por vezes, mudar-nos as vidas.  

2
      Vivemos baseando-nos em dados que julgávamos certos, garantidos, seguros pelos laços de sangue - mesmo que saibamos que nada é garantido. Um dia, percebemos que, afinal, eram apenas dados mascarados, lançados de forma a cegarem-nos, dados ocultados por quem  quer dominar tudo e todos à sua volta, em proveito próprio ou por pura maldade. O dia da revelação chega quando, em resultado do excesso de confiança ganho por quem ia laboriosamente lançando os dados e viciando o jogo, um passo em falso é dado. A crua verdade é-nos revelada. Podemos, a partir daí, procurar o equilíbrio, procurar reescrever e ler a vida com outros olhos, passando a vivê-la de outra forma, mas será sempre num equilíbrio imperfeito. Os alicerces que acreditávamos estarem lá não eram aqueles que julgávamos, não eram  aqueles em que nos fizeram acreditar, não eram aqueles que deveriam ser verdadeiros, reais, porque é assim que a nossa sociedade espera que sejam: laços de sangue são sagrados. E não são. Tudo temos de pôr em causa, mesmo aquilo que sempre nos foi apresentado como verdade. 

3
    Outras vezes ainda, a vida já foi decidida por fatores a que somos alheios. Nada podemos fazer para os controlar, porque simplesmente os desconhecemos e quando dão sinal - caso deem - já é tarde e a vida está decidida. Resta-nos acatá-la e viver o melhor possível, se ainda houver tempo, com aquilo que resta ao nosso dispor,  recordando o que de bom a vida nos trouxe, embora um nó nos aperte a alma, o estômago, a garganta... pois sabemos que é tempo para mais uma despedida.







[uma pérola]