quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

«Todo o mundo é composto de mudança» *

   Cheguei à janela e vi o Sol, vermelho, multiplicado numa dezena de janelas a nascente. Virei-me para o ver a poente. Ao contrário do que esperara, e em seu lugar, vi tijolos e vigas de cimento. Na voragem dos dias, tinha-me esquecido que um prédio se tem erguido no fim da minha rua. Um vazio inundou-me por instantes... Pensei depois que era um disparate da minha parte, já sabia que aquilo ia acontecer. Por aqui, o pôr do sol jamais será o mesmo, não voltarei a ver, neste meu recanto, os tons avermelhados que ainda me surpreendem. Agora, a minha rua já não é infinita. O Sol continua a sua viagem, continua a pôr-se e outros, no fim da minha rua, apreciarão - espero eu -  a sua beleza ao deitar-se no horizonte.  Guardo comigo todos os pores-do-sol que vi daquela janela e anseio pelos outros que ainda espero vir a ver do outro lado da minha casa.


sábado, 10 de dezembro de 2016

(re)encontro


Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
.
- Carlos Drummond de Andrade



sábado, 3 de dezembro de 2016

dia de chuva

Dia de calma e de reclusão, de perder a noção das horas. O tempo estende-se, estica-se. A chuva esconde a luz do dia e as horas parecem não avançar. Vi um bom programa e naturalmente não fiquei surpreendida com aquilo que ouvi. Há pessoas que traduzem de forma tão simples os medos que nos vagueiam pela alma. Pelo meio, o tema do humor e o que ele poderá significar de mais profundo. Fiquei aqui o resto da tarde a refletir sobre a finitude de tudo e sobre o significado da vida. Apreciei (melhor) ainda o espetáculo do movimento das nuvens, da chuva a cair, enquanto ficava reclusa do sofá e dos braços que me aconchegam.    



 

[uma das escolhas de RAP no programa «Alta Definição»]

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

luz

   «There is a crack, a crack in everything
   That's how the light gets in»

    Leonard Cohen

   A escuridão chegou um dia sem aviso, como se fosse uma qualquer previsibilidade, uma chuva que cai no outono, um vento que surge ao fim de uma tarde, mais uma noite que chega quando o Sol se põe... Sem condescendência nenhuma por mim nem por ninguém, instalou-se. Com ela, instalou-se também a confusão que naturalmente nos domina quando nos encontramos perdidos no meio de um turbilhão, às escuras,  sem luz para nos guiar. Agora, aos poucos, mas de forma intermitente, uma luz vai-se, entretanto, anunciando.  Vejo-a, ténue, a aproximar-se. É a saída? É um comboio que se aproxima?












sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Bob, as palavras e a liberdade

  Gosto da ideia da academia sueca fugir àquilo que se espera dela - galardoar um escritor com livros publicados -  e distinguir alguém que, além de textos, ainda escreve música. E podia ser o Leonard Cohen. Gosto é desta liberdade, de terem levado algumas pessoas a pensar que também nas canções há poesia (não em todas, claro, mas dessas nem falo para não manchar este texto) e que a literatura está ao alcance de todos e presente no nosso dia a dia. Gosto da ideia de não fecharem a literatura numa caixa a sete chaves e de não (des)classificarem autores por também escreverem música e cantarem.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

o condicional fica-lhes tão bem

    Eu faria certamente assim, se... 

    No lugar dos outros,  muitos fariam, indubitavelmente, coisas fantásticas, agiriam de forma obviamente exemplar, tornando tudo  - sem dúvida alguma - infinitamente melhor e mais perfeito, mas apenas se estivessem no lugar dos outros. E o «se» faz muita diferença. 

   A mim, parece-me que a vida vai ensinando, mais a uns do que a outros, que essa certeza absoluta que os rege tem muito que se lhe diga. Só passando por elas...



Imagem de máscaras retirada daqui.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

simplesmente Vergílio

«Ao fim de todas as explicações nós esbarramos contra o facto em bruto e vertiginoso de tudo ser o que simplesmente está aí, sem explicação nenhuma.»

Vergílio Ferreira, Pensar





segunda-feira, 19 de setembro de 2016

à beira ...

 Viveria longe, bem longe, à beira de uma cratera de um qualquer vulcão, silenciosamente enganadora, inundada e transformada num lago liso e sombrio, espelhando o céu, rodeada de pequenas fadas e de outros seres étereos, imperfeitos e certamente alados, que iriam e viriam ao sabor dos ventos e das tempestades...


 [para fazer algum sentido, recomenda-se a leitura do texto e a audição da  música em simultâneo]

sexta-feira, 17 de junho de 2016

no tempo

  O tempo vai passando e há cada vez  mais datas que me lembram alguma ocasião especial, nem sempre pelas melhores razões, mas todas elas fazem parte da vida (dos outros, da minha também) e são sinal de que estou viva e de que sinto. Nos lugares vazios, nas ausências, vou conseguindo encontrar a presença dos seus legados. É preciso saber deixar ir o que não pode ser trazido de volta. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

devíamos transformarmo-nos em nuvens


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira

domingo, 5 de junho de 2016

ainda os dias

   De manhã, muito cedo mesmo, aliás, de madrugada, fui até lá fora. A temperatura já era amena e ouviam-se e viam os pássaros que  cantavam e voavam, livres. O Sol começava a surgir. E nada mais se ouvia, a não ser o dia que começava. Todo o espaço em meu redor estava liberto de pessoas, que certamente dormiam, tantas eram as janelas cerradas. Algo me apertou por dentro, ao receber assim  este dia que continua a ser de espera, Por agora, os pássaros continuam, livres, felizes, a cantar e a voar. O Sol já vai mais alto, as pequenas nuvens dissiparam-se. Não tarda nada, ouvir-se-ão as portas a bater, os carros a andar, verei as pessoas a passear os cães, as crianças continuarão a  brincar como se tudo fosse eterno, enquanto por aqui o tempo continua de espera e a vida, suspensa, se arrasta, esperando a notícia que terá inevitavelmente de chegar.



sexta-feira, 20 de maio de 2016

domingo, 15 de maio de 2016

dias

... há dias que são de espera e que poderão ser especiais pelas piores ou melhores razões, mas não deixam de ser dias das nossas vidas, podendo ser apenas dias corriqueiros nas vidas dos outros e até das nossas,
o mundo continua a girar, o sol põe-se, a porta do prédio faz barulho quando é fechada - mesmo que as nossas vidas estejam em suspenso - a chuva cai, o vento agita as folhas, as flores, alguém passeia o cão mesmo à nossa frente, as crianças correm e brincam como se tudo fosse eterno...

domingo, 8 de maio de 2016

quem anda à chuva molha-se

  Dizem-se tantas banalidades por aí e são tão verdadeiras, mas há um dia em que elas fazem sentido na nossa vida e aí deixam de ser banalidades. A sabedoria popular é imensa e nela podemos buscar algum conforto. Se há ditados que se podem aplicar a tantas situações é porque já houve um mar de gente a viver situações  semelhantes, permitindo a criação desses ditados e é aí que chegamos ao conforto, ao não nos sentirmos sós:  fazemos parte de um todo e somos apenas mais alguém que experencia o mesmo.
  A realidade às vezes escapa-nos, mas quando acaba, finalmente, por chegar até nós, há que perceber que há sempre outro lado. Ela, a realidade, estava lá e mais cedo ou mais tarde haveria de chegar. Não é fechando os olhos que ela deixa de existir. Às vezes simplesmente não soubemos ler os sinais, os avisos, os indícios...Quando não é boa e nos apanha desprevenidos, temos de procurar ver o lado positivo do reverso da medalha...não é imediato, nem isso seria possível. A dor impede-nos de o ver. De início parece-nos que nem sequer existe, mas ele acabará por aparecer. Há que dar tempo ao tempo e esse lado positivo vai surgir, depois de muita dor, sofrimento, amargura. A vida segue em frente, o passado não se apaga, mas erguemo-nos mais fortes e mais seguros, depois de, pelo caminho, termos lembrado outros tantos ditados («Elas não matam mas moem», por exemplo..) para nos ajudar a chegar ao reverso da medalha, que não tem de ser necessariamente negativo.

domingo, 1 de maio de 2016

os lugares vazios





já há tantos lugares vazios, mãe


Não o merecias, mãe. A vida prega-nos partidas e aí percebemos que não somos imunes às histórias tristes que ouvimos tantas vezes. Acontece-nos a nós também. Não é só aos outros. Nós, afinal, também somos os outros para alguém. E ser mãe não acaba nunca. Mas não o sabemos antes de o ser. Percebemos apenas quando a vida nos põe à prova. Já era tempo de teres descanso, calma, tranquilidade, já deverias ter apenas aquela sensação de dever (bem) cumprido, e eis que a vida te prega uma partida, das grandes. E os teus olhos de mãe rejeitam aquilo que deverias ver. Mas percebo-te: simplesmente não podes deixar de ser mãe. 


... já há tantos lugares vazios, como no poema...e eles já estavam assim, nós é que não víamos...



«na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco. »

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas

terça-feira, 26 de abril de 2016

as malas dos filmes

 
  Ontem, num filme, vi uma cena em que as personagens transportavam malas de viagem que estavam visivelmente pesadas. «Finalmente!», pensei. 
  As cenas em que as malas balançam de um lado para o outro deixam-me sempre de pé atrás relativamente ao aderecista e ao realizador (para não falar do filme). Será que pensam que não reparamos nestes pormenores?

 [também há bons filmes com malas oscilantes...]
 [e  não precisam de encher as malas com chumbo, mas umas coisitas lá dentro fazem milagres...]


Imagem daqui.

sábado, 23 de abril de 2016

pequenez

Era uma vez um homem que vivia dentro de um copo
E tão pequeno era o seu mundo
Que sempre que suspirava crescia uma tempestade


[também podia ser uma mulher...]

quinta-feira, 21 de abril de 2016

fel

  O dia de trabalho começou com alguém aos gritos. Sem razão, a pessoa deitava, pela boca, pelos olhos, pelo corpo todo, o fel que lhe percorre as veias, as artérias, o fel que lhe amarga a cabeça, o coração e o estômago...enfim, a vida. Fiquei impávida e deixei que o fel saísse e que a fonte esgotasse. Mas não foi isso que aconteceu. Parecia uma fonte interminável e, quando parou de vomitar o fel que lhe envenena a vida, lá continuou o seu caminho, cheia de si, realizada por causa de uma mesquinhez que começou exatamente por uma falha da sua parte e que não tem qualquer importância na vida de ninguém, a não ser na dela. Não seria verdadeira se dissesse que estas coisas não me incomodam. Incomodam! Incomodam pela injustiça que lhes está inerente e nem me apraz pensar que o pior é para aquela que, em vez de sangue, tem fel a passar-lhe pelo coração.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Amizade em estado puro



  A palavra que de imediato associo à amizade é lealdade. Sou leal até poder ou até me deixarem. Na amizade, interessa-me apenas a felicidade do outro, o seu bem estar.
 
  Sempre achei de uma grande banalidade as pessoas que chamam «amigo» a toda a gente. Mesmo quando era criança. Lembro-me da estranheza de ter ouvido alguém, também na altura bem novo, dizer «Ontem, conheci um amigo...»...
  Pensava por vezes que era eu que era esquisita, mas continuei firme no meu propósito de chamar amigas apenas àquelas pessoas com quem me sentia bem e que me transmitiam confiança. Também tive surpresas, mas vamos aprendendo que não controlamos tudo nem todos e que, tal como os outros, também nos enganamos. Por vezes é a vida que dá umas reviravoltas e sabe-se lá o que passa pela cabeça das pessoas... Outras vezes, são circuntâncias que surgem e que acabam por revelar características que nunca víramos ou não queríamos ver... 

 
Imagem daqui.

sábado, 9 de abril de 2016

ali mesmo, junto das portas do céu



«Cantique de Jean Racine» de Gabriel Fauré (op.11)

 Orquestra e coro de Paris dirigidos pelo maestro Paavo Jarvi.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

seguindo as linhas tortas da vida


 Um chão de madeira leva-me a lugares que já não existem e a tempos em que tudo era ainda possível. Não estou a falar de soalhos flutuantes, nem de um parquet todo direitinho, geometricamente colocado. Nada disso. Falo de madeira, madeira mesmo: madeiras antigas, seculares, irregulares, longas, da largura de um tronco de árvore, cheias de nós escuros - também irregulares - madeiras cheias de linhas, também elas irregulares, tudo natural e maravilhosamente imperfeito. Nessas tábuas, fui trilhando os caminhos da minha infância,  ladeada pelos meus avós, seguindo e sendo seguida por eles... e é incrível como, nos poucos anos em que convivemos, antes que a morte mos levasse, essa madeira do chão das suas casas me tenha marcado tanto. 
 As tábuas já não existem, ou pelo menos já não fazem parte do meu quotidiano, mas continuam na minha vida como um legado e, de todas as vezes que vejo um chão desses, penso nos dias em que calcurreava os labirintos de madeira que existiam na imensidão daquelas casas.  Ainda lhes leio as linhas sem fim e parece que ainda é nelas que vai sendo escrita a minha vida.




sábado, 19 de março de 2016

ausência

...
na luz ainda acesa
nas janelas abertas para a escuridão da noite
nos objetos espalhados pela casa
nos restos de maçã em cima da mesa
no telemóvel que ainda tocava
percebia-se que a vida passara por ali
mas
um silêncio imenso 
e uma quietude absoluta
anunciavam uma ausência sem fim 
...

terça-feira, 15 de março de 2016

Por vezes também há dias assim na primavera

   Um poema belíssimo.

   Há poemas tão perfeitos, tão belos quanto verdadeiros, como este de David Mourão- Ferreira.

  ... as noites que duram meses, os meses oecanos...
  ... os abraços que já não os mesmos...
  e quando num segundo se evolam tantos anos...




sexta-feira, 11 de março de 2016

primavera

   O calendário diz-me que ainda não é primavera, mas a natureza não liga ao calendário e vai surgindo aos poucos, nos dias mais longos, nas flores que, no meu jardim, me surpreendem a cada dia.



quarta-feira, 9 de março de 2016

O dia em que o bosque real quase foi arrasado por causa de uma gripe


   Os homens precisam de algo que os ocupe e, sobretudo, não podem adoecer! Cheguei a esta brilhante conclusão, depois de ter o meu príncipe vários dias em casa, combalido com uma gripe...
   Primeiro chegou o frio, um frio que não o  largava. Pensei e desejei entre dentes: «Está frio, isto já passa.» e disse «Foste à fresca! Tens a mania que é verão».  Mas o frio continuou. Nem a lareira nem chá o aqueciam. Horas e vários espirros depois, veio a confrmação. O frio não o largava mesmo e a temperatura subia. Nada a fazer.O meu príncipe estava com gripe. «Ui!» «Credo!» Já vos oiço a dizer... e sim, um príncipe com gripe não é diferente de qualquer outro homem, seja rei, padeiro, engenheiro ou marinheiro. Sofre, e muito, muito mesmo. Camadas de cobertores, chás, canjas, roupão, paracetamol... mais outro pijama. nada chegava para o consolar e confortar.Quanto a mim, estive à beira de um ataque de nervos (desculpa, Almodóvar, invocar assim o nome do teu filme...). Não há medicamentos, chás, mezinhas, canjas suficientes que acalmem o sofrimento de um homem. 
   As galinhas cá do palácio pressentiram que havia qualquer coisa de diferente, à medida que os dias avançavam e as suas companheiras desapareciam, imediatamente depois da visita da cozinheira. Passaram, pois, a esconder-se sempre que ela voltava a entrar no galinheiro. O que a pobre mulher correu para agarrar as galinhas na tentativa inglória de apaziguar os sintomas de tão cruel maleita! Entretanto,no quarto real, os espirros sucediam-se em catadupa.Uma resma de pessoas acotovelava-se na tentiva de minorar o sofrimento causado por esta gripe real. Lenha foi deitada ininterruptamente na lareira para que o frio que o invadia passasse,  com custos razoáveis no nosso bosque real, pois os lenhadores trabalhavam dia e noite. Também o pomar sofreu um desbaste assinalável, por causa dos chás de limão e dos sumos de laranja. Entrei várias vezes por dia no quarto para o confortar («na saúde e na doença...») e invadia-me sempre um  calor tropical causado pela lareira que fazia arder a lenha no máximo da sua capacidade. «Está demasiado calor» pensei e disse «Querido, está muito quente! Não podes estar assim no meio deste calor, dado que estás com febre». Mas qual quê? Que sabia eu acerca do assunto, quando estava a ser bafejada pela sorte por o vírus (ainda) não me ter atingido?!»  
   Escrevo agora para vos informar que  sobrevivi (e o meu príncipe também). Passados sete dias, voltou alegremente para o seu trabalho para felicidade das galinhas, da cozinheira, dos animais do bosque, dos lenhadores, dos pássaros do pomar e, naturalmente, de mim própria, que, finalmente, já não tenho de baixar o tampo da sanita de cada vez que vou aos «toilettes» reais. Ufa!!

Imagem daqui.

domingo, 6 de março de 2016

Caixa de música

  A princípio, o branco cor de marfim levou-me a acreditar ser um esqueleto de um animal pré-histórico descoberto recentemente. Depois, percebi que era qualquer coisa relacionada com a música e os meus neurónios lançaram um alerta. Comecei a ver o vídeo e percebi que era uma caixa de música muito sofisticada. Uma mistura de brinquedo infantil (encaixes de madeira, esferas de metal, gravidade, percursos...) e de caixa de música. 
  Por muito que me fascine ver e ouvir esta caixa de música, não devo conseguir imaginar a satisfação de quem a construiu, tendo em conta o tempo e os cáculos que teve de realizar.  

   Muito engenhoso...




(texto editado)

sábado, 5 de março de 2016

Avó



 O corpo não obedece, mas a cabeça revela uma lucidez que me espanta, apesar dos seus quase cem anos.
  O seu sorriso recebe-me sempre, sem queixas, e ao pé dela quero ser outra vez menina. Mas não posso. Está velhinha, muito velhinha. Oiço as suas memórias, olho para as fotografias que a rodeiam e lembro-me que ela não foi sempre assim. Já não pode ser ela a cuidar de mim. As fotografias que a rodeiam recordam-me aqueles de quem ela já teve de se despedir. Uns há muito tempo, outros há menos. Aqueles de quem era suposto despedir-se, outros que não.
  Pergunto-me quantos mundos teve de ir construindo e deixando ao longo da sua vida de quase um século. Será aquele em que vive o último? Ou terá ainda de construir mais algum? Desejo que não tenha de se confrontar com mais uma perda. Desejo que só tenha de construir um mundo, se for para receber mais alguém. Quero poupá-la ao sofrimento e ela quer poupar o meu, o nosso, sorrindo e parecendo estar bem com a vida, aceitando aquilo que ela lhe vai tirando e ainda vai dando. A idade ensina-nos tanto, penso. Mas pressente-se que vive(mos) um tempo de espera, de fragilidade...às vezes com uma calma desconcertante.
 Que esperança pode ainda ter, quase aos cem anos, quando tem a cabeça mais lúcida do que o corpo?



  Imagem daqui.

quarta-feira, 2 de março de 2016

P de Princesa

 

 
   A P. era uma verdadeira princesa. Partiu há cinco anos. De repente, sem aviso.  
   Lidei com ela pouco tempo, não houve tempo para mais.  E não terá sido por acaso que o seu nome começava por P, um P de Princesa. Tornei-me rapidamente sua amiga, devido à sua simpatia, à sua simplicidade. O mérito foi todo dela. Também não gostava de incomodar ninguém. No trabalho que nos uniu, fomos cúmplices e entendemo-nos sempre, quase que líamos o pensamento, as ideias uma da outra. Trabalharmos juntas foi um daqueles acasos felizes.

  P., deixo-te aqui uma das orquídeas de que tanto gostavas e de facto não haverá outra flor que melhor condiga contigo. Esta parece ter nascido ali, inesperadamente, no tronco de uma árvore, e estou certa  de que plantaste muitas flores nos sítios por onde passaste. Elas estão por aí a florir.



Imagem daqui.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Inverno



    Está frio e o vento corta-me a alma, trespassando as várias camadas de roupa com que decidi  cobrir-me hoje.
   Estoicamente, penso em ir tomar um café à rua (é uma maneira de dizer, pois na rua é que eu não tomava um café hoje!) O vento atravessa tudo, levando algumas palavras que me andavam a remoinhar na cabeça. Ao menos isso. O mundo parece mais leve. As folhas das palmeiras dançam ameaçadoramente. O céu está cinzento e carregado. O vento entra sem ser convidado e sente-se cá dentro. Tremo. Encolho-me. Uma nesga de sol surge, mas o vento continua frio. Desisto. Fico-me pelas boas intenções. O frio venceu. Fico aqui recolhida, encolhida e enrolada num cobertor macio, a beber chá quente. A música adoça-me a alma, embala-me. A noite  chega daqui a pouco. O vento volteia pelo mundo.

Bom fim de semana de inverno.



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A rua do Paraíso


       Há dois dias, li o texto «Beleza» do blogue de Miss Smile, que me deixou a pensar no nosso eterno desejo de felicidade e de perfeição. Algum tempo depois, navegando pela internet, tropecei numa fotografia de uma rua chamada rua do Paraíso. Sorri e pensei... «Que coincidência maravilhosa!». Como seria a vida numa rua onde tudo correria como esperado e onde todos seriam felizes? A felicidade não se conquistaria, seria um dado adquirido... 


    A rua do Paraíso era um lugar muito especial. A felicidade reinava e a perfeição reinava com ela. Sempre em sintonia e em plena concordância. Os dias eram sempre claros, as noites maravilhosamente pintalgadas de estrelas. Numa harmonia perfeita com o dia, só chovia de noite, mas sem que houvesse nuvens (e sem que ninguém questionasse aquele fenómeno ). Chovia quando todos dormiam e dormiam sempre todos às mesmas horas. Ninguém gritava, ninguém chorava, ninguém sofria, não havia necessidade, pois tudo corria como previsto e imperfeição era palavra que não entrava ali.
   As pedras da calçada estavam alinhadas, direitas, iguais umas às outras, sem sobressaltos. O alcatrão estava liso, impedindo a criação de pequenas poças onde se pudesse ver o avesso do mundo e o mundo do avesso. As plantas eram viçosas e havia sempre flores nos locais previstos. Pareciam de plástico de tão perfeitas, religiosamente regadas às mesmas horas pelos seus donos cumpridores. Nas casas, sempre com ar de terem sido acabadas de pintar, as janelas eram todas brancas, lindas e com os vidros a brilhar, sem pó nem mancha de chuva, pois apenas chovia à noite, quando as janelas estavam devidamente fechadas.
  Lá dentro, não havia um cabelo caído e o pó parecia não entrar. Os casacos estavam sempre todos pendurados, as televisões transmitiam imagens de um mundo perfeito e pacificado, as músicas que saíam dos rádios eram sempre alegres e com palavras felizes . Do forno, os bolos saíam sempre perfeitos, sem mácula, como seria de esperar (aliás nem ninguém ansiava por vê-los cá fora, porque o desfecho era conhecido). 
  As histórias dos filmes, das séries, das peças de teatro, das óperas, dos livros…? Era um desfilar de peripécias e de finais felizes. Os corações não aceleravam, pareciam metrónomos bem regulados. Com enredos perfeitos, simples, lineares, que poderíamos esperar? E as músicas? Todas transbordavam felicidade, alegria, perfeição, sempre com o mesmo ritmo, as mesmas sequências, os mesmos acordes, as mesmas palavras.
  Os corações,  claro, batiam todos à mesma velocidade, a tensão arterial estava sempre igual, o colesterol controlava-se a si próprio, o nível de açúcar no sangue era o desejável, os triglicéridos também e por aí adiante. 
   E quanto ao amor? Amor? Não havia paixões arrebatadoras, nem amores à primeira vista, nem olhares furtivos... Nada. Nada saía do expectável. Tudo sempre controlado.  Era a rua do Paraíso.

   

  

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sabedoria popular

    A sabedoria popular tem histórias, provérbios e ditados para todos os gostos e situações. E embora se contradigam muitas vezes ( «Quem espera sempre alcança» e «Quem espera desepera»?!...), todos eles encerram uma grande sabedoria, construída e cimentada por experiências seculares, não respeitando fronteiras físicas. 
   Na que  aqui fica hoje, há uma grande verdade e assim será (parece-me...) enquanto existirem humanos à face da Terra ou fora dela: a história do velho, do rapaz e do burro, que aqui deixo na versão de Sophia de Mello Breyner Andresen. Não haverá tecnologia que resolva esta situação...



O Velho, o Rapaz e o Burro

Um velho, um rapaz e um burro na estrada.
Em fila indiana os três caminhavam.

Passou uma velha e pôs-se a troçar:
-O burro vai leve e sem se cansar!
  
O velho então pra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.

 Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
-Ai, coisa feia! Que triste que é ver!

 O velho no burro, enquanto o rapaz,
Pequeno e cansado, a pé vai atrás!

O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém gritou: 

-Bem se vê que o mundo está transtornado!    
 O pai vai a pé e o filho montado!

O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.

Assim pela estrada seguiram os três:
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:

Um rapaz já grande e um velho casmurro.
São cargas de mais no lombo de um burro!

Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras, sério, falou:

Aprende, rapaz, a não te importar,
Se a boca do mundo de ti murmurar.

Imagem daqui.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

desalentos

  
  Até ao nascer é preciso ter sorte.
  Não no sentido de haver um destino ou algo pré-definido.
  É mesmo preciso ter sorte:
  sorte com a mãe,
  sorte com o pai,
  sorte com o pai e com a mãe,
  sorte com os irmãos,
  sorte com os avós,
  sorte com os tios,
  sorte com os vizinhos,
  sorte com aqueles com quem nos cruzamos,
  sorte com  todas as variantes resultantes da combinação dos elementos anteriores,
  sorte apenas.
  Algo que não se escolhe,
  algo a que não se pode fugir,
  sobretudo se ainda se é criança e não se pode escolher, fugir, resguardar.
  Sorte quando aqueles que é suposto darem proteção são aqueles de quem era preciso saber fugir.
  Não me venham dizer que não.
  Que até ao nascer é preciso ter sorte.
Imagem daqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Bolo de chocolate ao pequeno-almoço



 Há notícias que nos deixam naturalmente felizes e há uns dias deparei-me com uma dessas. Imaginem um título assim: bolo de chocolate ajuda a emagrecer. Há melhor? E não era dia das mentiras, certifiquei-me depois, olhando para o calendário do telemóvel.

 Já se sabia que o chocolate traz bastantes benefícios, mas há dias uma notícia no Telegragh deixou-me à beira da euforia. E isto de sair num jornal estrangeiro, ainda por cima das terras de sua majestade, tem outra força, outra credibilidade.

   Li o título e nem cria nos meus olhos. Resolvi ler outra vez. Ah! Mas (há sempre um «mas»)... ainda nem me tinha refeito de tanta felicidade e já estava uma nuvem negra a pairar! Leiam, leiam o título com atenção...

Chocolate cake breakfast could help you lose weight 

  Perceberam?! Bolo de chocolate ao pequeno-almoço pode ajudá-lo a perder peso. Perceberam?! «Could?» (ou seja, «pode»). Isto é coisa que se faça? Ainda uma pessoa nem chegou a meio do título e já a felicidade começa a esmorecer. O «pode» deixa algumas reservas... afinal o bolo de chocolate ao pequeno-almoço não resulta sempre? Eu já desejosa de procurar mil e uma receitas de bolos de chocolate (que existem de certeza, se calhar mais do que as de bacalhau) e um mísero verbo («could») a estragar-me a festa! É que eram duas palavras mágicas: chocolate e emagrecer! Ainda por cima juntas! Há alegria maior?! Bem, vamos acreditar que a sorte vai bafejar-nos e que somos aqueles felizardos a quem o bolo de chocolate emagrece, se ingerido ao pequeno-almoço...

  Desde o tempo em que a minha querida (e naquela altura futura) sogra me pôs uma ervilha debaixo de uma enormidade de colchões, os quilos foram-se acumulando. Os banquetes e as obrigações oficiais não me largam (sempre com petiscos pelo meio, lanches e lanchinhos, brunch e jantares reais....um sem fim de refeições às quais não me posso esquivar).  Se fosse agora, a ervilha teria ficado toda espalmadinha. Claro que há aqui algum exagero, mas a balança aqui do palácio não me engana, portanto vou experimentar as dicas do afamado jornal inglês. 

  Antes de ir procurar receitas novas, começo por esta receita que está na família quase desde o tempo em que o cacau foi trazido das américas (sim, hoje estou um pouco dada a exageros...). Este bolo tem a vantagem de ter pouco açúcar, mas se forem um pouco gulosos, podem acrescentar mais um pouco. Até ao dobro da dose, se forem mesmo, mesmo gulosos. Mas depois não digam que a estratégia não funciona...




  Ingredientes 
 1 caneca de farinha branca
 1 cabeca de farinha integral
 1 caneca de açúcar mascavado
 1 caneca de chocolate em pó (metade pode ser cacau)
 1 caneca de óleo
 1 caneca de leite quente
 1 colher de chá de fermento
 1 colher de chá de bicarbonato de sódio
 4 ovos médios

  Preparação
  Coloque os primeiros 6 ingredientes numa taça e misture-os bem para o bolo  ganhar ar e ficar bem fofo. Junte os ovos, o fermento e o bicarbonato de sódio. Misture bem. Coloque numa forma untada com manteiga e polvilhada com farinha. Leve a forno pré-aquecido a 180 graus durante 40 a 50 minutos.

  Depois, já sabe: é comê-lo (só) ao pequeno-almoço.

Desenho daqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Espelho meu



  A televisão estava ligada e o noticiário corria com as notícias habituais. Quebrando a rotina das desgraças diárias, o jornalista referiu-se a um anúncio recente com modelos femininos na casa dos cinquenta anos. Aí, pressentindo um tom dissonante, ela levantou os olhos. Pensou «Tchiii, 50!!!» Parou. «Espera aí! 50!?  Não estou assim tão longe!». Mais tarde, quando assistiu à reportagem, observou aquelas mulheres cheias de confiança nas suas cinco décadas. Reviu-se em alguns dos seus traços, naqueles que acusam a passagem do tempo. «A dificuldade que uma pessoa tem em perceber que o tempo passa para todos!Aliás, que passa também por mim!»,  pensou. . «E andamos nós sempre a falar sobre o tempo!  Do tempo cronológico, não do tempo atmosférico, embora desse também se fale....»

   Lembrou-se de uma fotografia recente e do que tinha pensado: «Estou assim?» Não se reconhecera naquela mulher de rosto mais largo, pálpebras mais descaídas, cabelo mais quebradiço... A imagem que tinha de si era diferente. Nessa imagem, guardada como uma fotografia, o tempo parara e ainda era jovem. Os anos tinham passado, mas por dentro persistia de si uma figura diferente. A imagem da fotografia dissera-lhe que envelhecera. Chegou-se junto do seu espelho e quis confirmar. «Nã... fiquei mal na fotografia.» Algumas poses depois, verificou que a fotografia revelara algumas facetas que não queria admitir ter. Nada a fazer! O tempo também passava por ela. E deixara marcas! «Pensavas que era só para as outras, não?!». Concluiu que a imagem diária que via no espelho não refletia a imagem real, mas sim aquela que criara algures no tempo, no auge da sua juventude e beleza. A fotografia traíra-a, a si e ao espelho que quotidianamente a acompanhava há anos a fio.

 O companheiro, estranhando tanta demora e observação frente ao espelho, mas adivinhando-lhe as deambulações, sussurou-lhe, puxando meigamente pela sua mão.

 - Vem comigo.

 Chegaram à sala e ele pegou no ipad. Procurou um vídeo que vira há uns anos. Sabia que aquele dia chegaria e aquele era o momento ideal para lho mostrar. Sentaram-se no sofá de sempre. Rodeou-a com um abraço terno  e o vídeo começou.





   Ela sorriu e retribuiu o abraço. Não foram precisas palavras. De seguida - e porque ele gostava de a pôr a rir - mostrou-lhe outro vídeo.



   E, cúmplices, demoraram-se a rir no sofá de sempre.

  
 Imagem daqui.

Nota: a tradução do primeiro vídeo deixa bastante a desejar, no segundo não há, mas os diálogos são semelhantes e as imagens valem por si. :)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Num dia de chuva também se pode ser feliz

«Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade».

  Carlos Drummond de Andrade 





«To the town we'll go
And to your hideaway
Where the towers grow
Gone to be far away
Sit quietly
Alone»

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

No aeroporto

  

   O aeroporto sempre me pareceu um lugar mágico. Quando era criança, fui lá algumas vezes buscar familiares e lembro-me de olhar fascinada para a saída dos passageiros como uma porta mágica por onde chegavam pessoas cheias de histórias por contar. Invejava-as, mas era uma inveja saudável, boa, porque ficava feliz por elas terem  viajado, por terem vivido experiências únicas e também porque alimentava os meus sonhos. Tentava imaginar de onde vinha cada família, cada grupo, cada casal, cada viajante solitário. Observava os sacos e as malas que traziam, à procura de uma pista que me indicasse as suas proveniências. Sabia que cada um desses passageiros transportava em si uma história única que ansiava conhecer. Sabia que era impossível adivinhar-lhes as histórias, mas esse desejo permanecia em mim e sonhava com o dia em que eu própria sairia por aquela porta. Esse dia aconteceu quando já não era uma criança e trouxe comigo uma história inesquecível, a primeira de uma mão cheia delas que não quero esquecer. De cada vez que saio por aquela porta, revejo-me ali, daquele lado, nas chegadas, e procuro a criança que sonha com as histórias trazidas de outros lugares. 


Imagem daqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Os cheiros

 

     Há algum tempo, li um texto - Rua da Alegria - que me fez pensar na importância que os cheiros têm nas nossas vidas.  E muito mais do que aquilo que queremos consciencializar. Os cheiros são capazes de nos afastar de algo ou de alguém, de nos cativar, de despertar em nós a paixão...

  Lembro-me dos cheiros da minha infância (muitos e bons) e percebo como são importantes naquilo que sou hoje.  Perco-me a pensar nos cheiros e eles levam-me numa inevitável viagem no tempo.
 
   Sem que me aperceba, o cheiro do pão quente, sobretudo se me apanha no meio de uma rua, ao ar livre, transporta-me para a aldeia da minha avó, onde uma vez, num sábado de manhã, me lembro de comer (devorar...) um pão que era apenas o melhor do mundo.

  Outro cheiro único para mim é o da terra molhada, no verão, quando acabou de chover. É imperativo que esteja calor. O cheiro não é o mesmo, se a chuva não cair na terra quente e seca. Quando assim acontece, estou de novo no campo, na quinta dos meus avós, onde ia nos verões da minha infância.

  Mas o cheiro da manhã é para mim o melhor. Quando acabo de acordar e tenho tempo de abrir a janela com a calma que é necessária nestes momentos, vou de propósito lá para fora para sentir esse cheiro que me dá força, que me lembra a infãncia e que traz a esperança de que, naquele dia e daí para a frente, tudo vai ser simples e possível de alcançar. Tudo isto por ter ido, quando era criança, para o ar livre, no campo, em dias quentes, luminosos e longos, e por isso mesmo felizes e intermináveis.



Imagem daqui.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Benjamin Clementine

   Um dia, li um comentário acerca deste músico que há pouco tinha dado um concerto em Lisboa. Esse comentário despertou-me a curiosidade, já não sei bem porquê. Houve ali uma campainha que me levou a procurá-lo. -Benjamin Clementine. - Fui ouvi-lo. Fiquei presa logo nas primeiras notas, nos primeiros acordes,  É diferente. Toca e canta como quem fala, mas melhor, muito melhor. A voz. A intensidade. A figura. Um enigma que paira. A combinação de sons. De sons graves. O contraste entre a força da voz, a tonalidade dos sons e a sua sensibilidade.. Irresistível! Difícil é escolher uma faixa. Oucam-no. Depois, se quiserem ou puderem, investiguem um pouco sobre a sua ainda curta mas intensa vida. E fiquem ainda mais abismados.




 E ainda:

Cornestone 

Nemesis 

Then I Heard a Bachelor's Cry

Mas há mais. Muito mais.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Mimos


    Era um dia como os outros. O lusco-fusco avançava sobre as casas, sobre as ruas, os carros e as pessoas. Naquela semiluminosidade, todos pareciam iguais, sem tirar nem pôr. As pessoas, as casas, as ruas, os carros. Eu avançava, tal como os outros, sem tirar nem pôr. Não me sentia diferente.  A falta de luz, os movimentos mecânicos não me distinguiam dos outros. Até por dentro estava igual aos outros. Quase me senti desaparecer, quase  me consegui ver de fora.  E era fácil sentir-me assim, igual aos outros, por dentro e fora. Fazer apenas o que era esperado que fizesse. Mas, depois de palmilhar caminhos iguais, com os passos ritmados pela falta de luz, pelo movimento incessante e monótono dos carros e dos autocarros, parei. Respirei o ar possível no meio daquela babilónia de sensações, ruídos, luzes e odores intensos. Cheirou-me a escape de carros, a suor, a ansiedade e cansaço. A pressa impelia-me para casa, como sempre, igual aos outros que à minha volta rumavam num movimento incessante para um destino qualquer, certamente diverso mas também idêntico. Sentei-me num dos poucos bancos que surgem nos nossos caminhos. Era à beira do rio.  Observei tudo à minha volta: cheirei a pressa das pessoas, senti o tempo a escorrer-lhes nos passos. Olhei para aquela multidão sôfrega e percebi que lhe pertencia, mesmo parada. Percebi que nunca poderia escapar àquela voracidade. Aquele momento, contudo, soube-me a eternidade. O tempo que ali demorei tornei-o meu. E demorei os segundos, os minutos, não sei, a eternidade necessária.Virei-me para o rio. À volta, tudo continuava num movimento perpétuo, contínuo, mas eu já não me revia naquele turbilhão. Já não me revia naquela massa indistinta que me cercava e me absorvia. Voltei a mim. E percebi que era única. Há bancos e momentos providenciais. Há que aproveitá-los. Sobretudo os que ficam à beira dos rios.


Imagem retirada daqui.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A capa dos livros

   Pensava saber há muito tempo que não devia julgar os livros pela capa, mas... mas foi mesmo assim que aconteceu. 
  Ela era bonita, mesmo bonita,  delicada e feminina, contudo, parecia que havia ali alguns pormenores pouco apurados. Um ar distante e superior, superficial, fútil, apesar de simpático, frases feitas, ideias mais que banais fizeram-me elaborar um retrato pouco lisonjeiro. Teríamos, certamente, poucas ideias em comum, concluí. Não conseguiria ter mais do que uma relação de cordialidade. Anos, muitos anos mais tarde, há muito pouco tempo, aliás,  percebi que por baixo daquela camada de lugares comuns havia mais do que parecia e o que vi era até aparentemente contraditório com o que tinha visto antes ou com o que ela tinha deixado ver.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Há gente que me ultrapassa IV

   Como não podia deixar de ser, cheguei ao IV... Desta vez, circulava eu na faixa a que tenho direito por lei e eis que um jipe estava parado numa das esquinas de um entroncamento, mesmo perto de uma escola e ocupando metade da faixa de rodagem. Dois miúdos imberbes estavam já sentados na parte de trás do jipe, que era certamente do século passado e  de marca indecifrável (pelo menos para mim).  O dito jipe, pequeno por sinal, ostentava os quatro piscas ligados como que a dizer vou-demorar-um-pouco-tenham-paciência, ou talvez sei-que-não-devia-estar-aqui-mas-tenham-paciência, e eu tive-a (a paciência). Tive paciência, porque naturalmente tenho paciência e porque não gosto de começar a buzinar assim do nada. Tentei uma ultrapassagem, mas do outro lado os carros pareciam jorrar continuamente não sei bem de onde e eu não conseguia passar. Percebi entretanto que a senhora (a condutora?!) não se encontrava ao volante e serpenteava à volta do carro sem qualquer razão aparente. Dito isto, continuava com a paciência possível e com a esperança de vislumbrar uma pequena oportunidade  para ultrapassar o jipe ou que a condutora se sensibilizasse com a situação de quem esperava para passar. Mas sem sucesso. Nem uma coisa nem a outra. Os carros do sentido contrário passavam continuamente, sem me dar a mínima oportunidade e para a senhora éramos certamente transparentes.  A paciência esgotou-se na fila que atrás de mim se foi constituindo, o que foi bastante notório nas buzinadelas que comecei a ouvir. A senhora continuava a serpentear à volta do carro, ainda sem razão aparente. Os miúdos, que estavam lá dentro, começaram a fazer caretas com ar divertido, em total desrespeito por quem esperava e em consonância com a possível progenitora. Quem sai aos seus... No meio das buzinadelas (a do meu carro também já se fazia ouvir, porque a minha paciência é grande, mas tem limites), eis que surgiu uma nesga de  oportunidade e ultrapassei o jipe para poder seguir o meu caminho. Pelo que consegui vislumbrar, a senhora  serpenteou um pouco mais, antes de se colocar ao volante e levar outra eternidade a tirar os piscas e a fechar a porta do veículo.

   

O Bowie de Natalie Merchant

Coisas boas que se vão descobrindo: Bowie por Natalie Merchant dos 10 000 Maniacs.




sábado, 16 de janeiro de 2016

O Bowie de Tiago Bettencourt


A liberdade, ai, a liberdade





   «O melhor do mundo são as crianças» dizia Pessoa, no seu poema «Liberdade». Pessoa não teve  filhos, mas teve sobrinhos e ouvi algures uma sobrinha dizer que  gostava bastante dele, considerando-o bastante divertido, o que contraria a ideia consagrada de que seria alguém muito sisudo.  Sorri para dentro e  com agrado quando ouvi  essa afirmação. Deveria ser daquele género de pessoas que está à vontade apenas com quem conhece e ama, deixando-se de frivolidades e fachadas para com os outros, guardando o seu melhor para quem considera merecê-lo.  O título do poema de onde foi retirada esta afirmação é revelador, depois de lermos o poema na íntegra e de estarmos atentos a alguns pormenores. A liberdade está em pequenos nadas. Há uma liberdade  que é interior, reside e tem a sua essência naquilo que os outros não alcançam e não podem modificar. As crianças são seres livres por excelência, desde que garantidas as suas necessidades básicas: sonhadoras e imaginativas, descobrem o mundo com curiosidade, exploram as suas possibilidades e têm a vida pela frente. Parece-me que os adultos que conseguem manter esse lado infantil poderão continuar a ser livres. A liberdade não é apenas fazer o que se quer. Essa ideia é extremamente redutora. A  liberdade está também na consideração pelos outros, na beleza, naquilo que aparentemente é supérfluo: a poesia,  a bondade, as crianças, as flores, a música, o luar, o sol, como disse Pessoa: 


«Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.»

Caso queiram ler o poema na íntegra, espreitem aqui.
(gosto muito deste vídeo para a canção da Zaz, 
do olhar limpo das crianças,  
da imagem a preto e branco...)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Há gente que me ultrapassa III




   Espero sinceramente não chegar ao número IV desta série, que isto já parece praga, perseguição ou sina. Será que imagino estas coisas? Ou já serão os meus olhos perspicazes à procura de histórias para vos contar? Provavelmente já nem acreditam em mim, contudo, todas estas histórias são reais. E tenho testemunhas, caso seja preciso. Hoje, olhei pelo espelho retrovisor e que vi eu? O condutor da carrinha que vinha atrás de mim a pegar num caderno (daqueles que usávamos na escola, tamanho A5),  colocá-lo sobre o volante e a dobrá-lo para consultar ou ler uma das folhas do meio. Seria para escrever? Nem esperei para ver... Acelerei o que pude, na medida das minhas possibilidades e dentro do respeito possível pela lei, tentando manter a minha integridade e a daqueles que comigo seguiam. Continuo a achar que anda por aí muita cheia cheia de fé. Em quê é que não consigo perceber.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

As regras do jogo

    
   O que há em mim perder-se-á comigo. Não que considere que o que já vivi, que o que aprendi seja assim tão importante ou especial. Falo de mim, mas qualquer um poderia fazer esta afirmação. Todas as pessoas são únicas e têm histórias únicas. Imagino todas as vidas contadas por escrito, mesmo que brevemente e limitadas ao essencial. As histórias fascinam-me! Adoro histórias bem contadas. Histórias verdadeiras, histórias inventadas, histórias baseadas em factos verídicos. Histórias. E sonho com um livro que reunisse todas as histórias de vidas reais. Custa-me que tantas experiências, tanto conhecimento, tanta complexidade e variedade se percam para sempre e que cada um de nós tenha de fazer todo o caminho de novo, como todos os outros antes de nós e como se ninguém tivesse vivido e sentido antes. Quem lesse esse livro interminável, nem que fosse em pequenos excertos, poderia daí tirar algum  proveito, tornando melhor a sua existência e reduzindo bastante o seu sofrimento e o dos outros. Seria uma forma de aperfeiçoar a felicidade humana, assim como se aperfeiçoa a medicina, a tecnologia, o conhecimento em geral. Mas as regras do jogo não são essas... ou talvez todas as histórias já contadas, por escrito, em filmes, em poemas... sejam uma tentativa desse livro sonhado. Houvesse tempo para ler, ouvir e ver tudo.

    (sim, eu sei, a experiência é tudo, ensina muito, esse livro tiraria metade do gozo, etc... eu sei, mas...)

Imagem daqui.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Bowie, outra vez Bowie



  As últimas notícias, as últimas fotos (as últimas mesmo) que têm saído sobre David Bowie não param de me espantar. A celebração da vida, mesmo à beira da morte. Um Bowie sorridente, bem vestido a dois dias de morrer, não é o que se espera de um ser humano. 



  Parece dizer-nos, sem o mínimo vislumbre de sofrimento: vivam a vida, sejam felizes até ao fim. Cada dia é um milagre.  No meio da supresa, do choque, da tristeza da sua morte, que quis  tornar inesperada, há uma alegria contagiante. Impossível não nos deixarmos contagiar! 



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bowie





Bowie, David Bowie.

A notícia chegou cedo.

David Bowie morreu.

surpresa

incredulidade

...silêncio...

morreu como?

lançou um disco novo!! agora...há dias!!!

... silêncio...

...silêncio...

...silêncio...



mas assim o que fica? de que se fala?...


fala-se da coragem, da discrição, da vida, da obra, do legado da música, do espetáculo...

não se fala da doença, do sofrimento, do fim doloroso

celebra-se a vida, celebrando-se a música, a obra

Genial!

Viva Bowie!





David Bowie

    Hoje, mais um herói partiu,  mas tornou-se certamente numa estrela. Até um dia, David Bowie!









domingo, 10 de janeiro de 2016

Os outros


 Klimt - Porträt Emilie Flöge - 1902
    As diferenças entre as pessoas é assunto sobre o qual reflito bastante. Tentar perceber por que motivo alguém atuou de determinada maneira, tentar colocar-me na pele dos outros é um exercício exigente e, por vezes, doloroso, mas que levo à prática. Frequentemente, com custos para mim própria. Tenho observado que nem todos têm esta capacidade. Há quem se ponha sempre em primeiro lugar, há quem não consiga, por alguma incapacidade inata (magoando aqui e ali, nem sempre tendo consciência das consequências dos seus atos), mas também há quem goste realmente de o fazer. Parece-me que é uma espécie de desporto.
    Há gente tão negativa, tão o oposto daquilo que somos, daquilo de que gostamos, daquilo em que acreditamos e que, apesar da nossa delicadeza, fica tão realizada e feliz por nos limitar os passos que acaba por nos levar a consolidar as nossas crenças e a nossa forma de viver. As dúvidas desaparecem e essas pessoas acabam por nos ajudar, afinal, a ter a certeza de que vamos num bom caminho e a sentirmo-nos mais seguros acerca das nossas escolhas.

 
  Imagem daqui.