sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Benjamin Clementine

   Um dia, li um comentário acerca deste músico que há pouco tinha dado um concerto em Lisboa. Esse comentário despertou-me a curiosidade, já não sei bem porquê. Houve ali uma campainha que me levou a procurá-lo. -Benjamin Clementine. - Fui ouvi-lo. Fiquei presa logo nas primeiras notas, nos primeiros acordes,  É diferente. Toca e canta como quem fala, mas melhor, muito melhor. A voz. A intensidade. A figura. Um enigma que paira. A combinação de sons. De sons graves. O contraste entre a força da voz, a tonalidade dos sons e a sua sensibilidade.. Irresistível! Difícil é escolher uma faixa. Oucam-no. Depois, se quiserem ou puderem, investiguem um pouco sobre a sua ainda curta mas intensa vida. E fiquem ainda mais abismados.




 E ainda:

Cornestone 

Nemesis 

Then I Heard a Bachelor's Cry

Mas há mais. Muito mais.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Mimos


    Era um dia como os outros. O lusco-fusco avançava sobre as casas, sobre as ruas, os carros e as pessoas. Naquela semiluminosidade, todos pareciam iguais, sem tirar nem pôr. As pessoas, as casas, as ruas, os carros. Eu avançava, tal como os outros, sem tirar nem pôr. Não me sentia diferente.  A falta de luz, os movimentos mecânicos não me distinguiam dos outros. Até por dentro estava igual aos outros. Quase me senti desaparecer, quase  me consegui ver de fora.  E era fácil sentir-me assim, igual aos outros, por dentro e fora. Fazer apenas o que era esperado que fizesse. Mas, depois de palmilhar caminhos iguais, com os passos ritmados pela falta de luz, pelo movimento incessante e monótono dos carros e dos autocarros, parei. Respirei o ar possível no meio daquela babilónia de sensações, ruídos, luzes e odores intensos. Cheirou-me a escape de carros, a suor, a ansiedade e cansaço. A pressa impelia-me para casa, como sempre, igual aos outros que à minha volta rumavam num movimento incessante para um destino qualquer, certamente diverso mas também idêntico. Sentei-me num dos poucos bancos que surgem nos nossos caminhos. Era à beira do rio.  Observei tudo à minha volta: cheirei a pressa das pessoas, senti o tempo a escorrer-lhes nos passos. Olhei para aquela multidão sôfrega e percebi que lhe pertencia, mesmo parada. Percebi que nunca poderia escapar àquela voracidade. Aquele momento, contudo, soube-me a eternidade. O tempo que ali demorei tornei-o meu. E demorei os segundos, os minutos, não sei, a eternidade necessária.Virei-me para o rio. À volta, tudo continuava num movimento perpétuo, contínuo, mas eu já não me revia naquele turbilhão. Já não me revia naquela massa indistinta que me cercava e me absorvia. Voltei a mim. E percebi que era única. Há bancos e momentos providenciais. Há que aproveitá-los. Sobretudo os que ficam à beira dos rios.


Imagem retirada daqui.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A capa dos livros

   Pensava saber há muito tempo que não devia julgar os livros pela capa, mas... mas foi mesmo assim que aconteceu. 
  Ela era bonita, mesmo bonita,  delicada e feminina, contudo, parecia que havia ali alguns pormenores pouco apurados. Um ar distante e superior, superficial, fútil, apesar de simpático, frases feitas, ideias mais que banais fizeram-me elaborar um retrato pouco lisonjeiro. Teríamos, certamente, poucas ideias em comum, concluí. Não conseguiria ter mais do que uma relação de cordialidade. Anos, muitos anos mais tarde, há muito pouco tempo, aliás,  percebi que por baixo daquela camada de lugares comuns havia mais do que parecia e o que vi era até aparentemente contraditório com o que tinha visto antes ou com o que ela tinha deixado ver.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Há gente que me ultrapassa IV

   Como não podia deixar de ser, cheguei ao IV... Desta vez, circulava eu na faixa a que tenho direito por lei e eis que um jipe estava parado numa das esquinas de um entroncamento, mesmo perto de uma escola e ocupando metade da faixa de rodagem. Dois miúdos imberbes estavam já sentados na parte de trás do jipe, que era certamente do século passado e  de marca indecifrável (pelo menos para mim).  O dito jipe, pequeno por sinal, ostentava os quatro piscas ligados como que a dizer vou-demorar-um-pouco-tenham-paciência, ou talvez sei-que-não-devia-estar-aqui-mas-tenham-paciência, e eu tive-a (a paciência). Tive paciência, porque naturalmente tenho paciência e porque não gosto de começar a buzinar assim do nada. Tentei uma ultrapassagem, mas do outro lado os carros pareciam jorrar continuamente não sei bem de onde e eu não conseguia passar. Percebi entretanto que a senhora (a condutora?!) não se encontrava ao volante e serpenteava à volta do carro sem qualquer razão aparente. Dito isto, continuava com a paciência possível e com a esperança de vislumbrar uma pequena oportunidade  para ultrapassar o jipe ou que a condutora se sensibilizasse com a situação de quem esperava para passar. Mas sem sucesso. Nem uma coisa nem a outra. Os carros do sentido contrário passavam continuamente, sem me dar a mínima oportunidade e para a senhora éramos certamente transparentes.  A paciência esgotou-se na fila que atrás de mim se foi constituindo, o que foi bastante notório nas buzinadelas que comecei a ouvir. A senhora continuava a serpentear à volta do carro, ainda sem razão aparente. Os miúdos, que estavam lá dentro, começaram a fazer caretas com ar divertido, em total desrespeito por quem esperava e em consonância com a possível progenitora. Quem sai aos seus... No meio das buzinadelas (a do meu carro também já se fazia ouvir, porque a minha paciência é grande, mas tem limites), eis que surgiu uma nesga de  oportunidade e ultrapassei o jipe para poder seguir o meu caminho. Pelo que consegui vislumbrar, a senhora  serpenteou um pouco mais, antes de se colocar ao volante e levar outra eternidade a tirar os piscas e a fechar a porta do veículo.

   

O Bowie de Natalie Merchant

Coisas boas que se vão descobrindo: Bowie por Natalie Merchant dos 10 000 Maniacs.




sábado, 16 de janeiro de 2016

O Bowie de Tiago Bettencourt


A liberdade, ai, a liberdade





   «O melhor do mundo são as crianças» dizia Pessoa, no seu poema «Liberdade». Pessoa não teve  filhos, mas teve sobrinhos e ouvi algures uma sobrinha dizer que  gostava bastante dele, considerando-o bastante divertido, o que contraria a ideia consagrada de que seria alguém muito sisudo.  Sorri para dentro e  com agrado quando ouvi  essa afirmação. Deveria ser daquele género de pessoas que está à vontade apenas com quem conhece e ama, deixando-se de frivolidades e fachadas para com os outros, guardando o seu melhor para quem considera merecê-lo.  O título do poema de onde foi retirada esta afirmação é revelador, depois de lermos o poema na íntegra e de estarmos atentos a alguns pormenores. A liberdade está em pequenos nadas. Há uma liberdade  que é interior, reside e tem a sua essência naquilo que os outros não alcançam e não podem modificar. As crianças são seres livres por excelência, desde que garantidas as suas necessidades básicas: sonhadoras e imaginativas, descobrem o mundo com curiosidade, exploram as suas possibilidades e têm a vida pela frente. Parece-me que os adultos que conseguem manter esse lado infantil poderão continuar a ser livres. A liberdade não é apenas fazer o que se quer. Essa ideia é extremamente redutora. A  liberdade está também na consideração pelos outros, na beleza, naquilo que aparentemente é supérfluo: a poesia,  a bondade, as crianças, as flores, a música, o luar, o sol, como disse Pessoa: 


«Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.»

Caso queiram ler o poema na íntegra, espreitem aqui.
(gosto muito deste vídeo para a canção da Zaz, 
do olhar limpo das crianças,  
da imagem a preto e branco...)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Há gente que me ultrapassa III




   Espero sinceramente não chegar ao número IV desta série, que isto já parece praga, perseguição ou sina. Será que imagino estas coisas? Ou já serão os meus olhos perspicazes à procura de histórias para vos contar? Provavelmente já nem acreditam em mim, contudo, todas estas histórias são reais. E tenho testemunhas, caso seja preciso. Hoje, olhei pelo espelho retrovisor e que vi eu? O condutor da carrinha que vinha atrás de mim a pegar num caderno (daqueles que usávamos na escola, tamanho A5),  colocá-lo sobre o volante e a dobrá-lo para consultar ou ler uma das folhas do meio. Seria para escrever? Nem esperei para ver... Acelerei o que pude, na medida das minhas possibilidades e dentro do respeito possível pela lei, tentando manter a minha integridade e a daqueles que comigo seguiam. Continuo a achar que anda por aí muita cheia cheia de fé. Em quê é que não consigo perceber.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

As regras do jogo

    
   O que há em mim perder-se-á comigo. Não que considere que o que já vivi, que o que aprendi seja assim tão importante ou especial. Falo de mim, mas qualquer um poderia fazer esta afirmação. Todas as pessoas são únicas e têm histórias únicas. Imagino todas as vidas contadas por escrito, mesmo que brevemente e limitadas ao essencial. As histórias fascinam-me! Adoro histórias bem contadas. Histórias verdadeiras, histórias inventadas, histórias baseadas em factos verídicos. Histórias. E sonho com um livro que reunisse todas as histórias de vidas reais. Custa-me que tantas experiências, tanto conhecimento, tanta complexidade e variedade se percam para sempre e que cada um de nós tenha de fazer todo o caminho de novo, como todos os outros antes de nós e como se ninguém tivesse vivido e sentido antes. Quem lesse esse livro interminável, nem que fosse em pequenos excertos, poderia daí tirar algum  proveito, tornando melhor a sua existência e reduzindo bastante o seu sofrimento e o dos outros. Seria uma forma de aperfeiçoar a felicidade humana, assim como se aperfeiçoa a medicina, a tecnologia, o conhecimento em geral. Mas as regras do jogo não são essas... ou talvez todas as histórias já contadas, por escrito, em filmes, em poemas... sejam uma tentativa desse livro sonhado. Houvesse tempo para ler, ouvir e ver tudo.

    (sim, eu sei, a experiência é tudo, ensina muito, esse livro tiraria metade do gozo, etc... eu sei, mas...)

Imagem daqui.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Bowie, outra vez Bowie



  As últimas notícias, as últimas fotos (as últimas mesmo) que têm saído sobre David Bowie não param de me espantar. A celebração da vida, mesmo à beira da morte. Um Bowie sorridente, bem vestido a dois dias de morrer, não é o que se espera de um ser humano. 



  Parece dizer-nos, sem o mínimo vislumbre de sofrimento: vivam a vida, sejam felizes até ao fim. Cada dia é um milagre.  No meio da supresa, do choque, da tristeza da sua morte, que quis  tornar inesperada, há uma alegria contagiante. Impossível não nos deixarmos contagiar! 



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bowie





Bowie, David Bowie.

A notícia chegou cedo.

David Bowie morreu.

surpresa

incredulidade

...silêncio...

morreu como?

lançou um disco novo!! agora...há dias!!!

... silêncio...

...silêncio...

...silêncio...



mas assim o que fica? de que se fala?...


fala-se da coragem, da discrição, da vida, da obra, do legado da música, do espetáculo...

não se fala da doença, do sofrimento, do fim doloroso

celebra-se a vida, celebrando-se a música, a obra

Genial!

Viva Bowie!





David Bowie

    Hoje, mais um herói partiu,  mas tornou-se certamente numa estrela. Até um dia, David Bowie!









domingo, 10 de janeiro de 2016

Os outros


 Klimt - Porträt Emilie Flöge - 1902
    As diferenças entre as pessoas é assunto sobre o qual reflito bastante. Tentar perceber por que motivo alguém atuou de determinada maneira, tentar colocar-me na pele dos outros é um exercício exigente e, por vezes, doloroso, mas que levo à prática. Frequentemente, com custos para mim própria. Tenho observado que nem todos têm esta capacidade. Há quem se ponha sempre em primeiro lugar, há quem não consiga, por alguma incapacidade inata (magoando aqui e ali, nem sempre tendo consciência das consequências dos seus atos), mas também há quem goste realmente de o fazer. Parece-me que é uma espécie de desporto.
    Há gente tão negativa, tão o oposto daquilo que somos, daquilo de que gostamos, daquilo em que acreditamos e que, apesar da nossa delicadeza, fica tão realizada e feliz por nos limitar os passos que acaba por nos levar a consolidar as nossas crenças e a nossa forma de viver. As dúvidas desaparecem e essas pessoas acabam por nos ajudar, afinal, a ter a certeza de que vamos num bom caminho e a sentirmo-nos mais seguros acerca das nossas escolhas.

 
  Imagem daqui.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Calma




   Começo serenamente o fim de semana. Na música, nas palavras, nas imagens. 
  Pressinto que o segredo está nas nuvens, que nos trazem esta chuva incessante, este cinzento feito de calma e de horas lentas. 



Tiago Bettencourt, Fúria e paz

Há gente que me ultrapassa II


   Pensamos que já vimos tudo ou que já imaginámos quase tudo e eis que, do nada, vem algo para nos relembrar que não é bem assim. 
  Ainda andava a digerir a história da rapariga que era certamente aparentada com os polvos, quando, no meu caminho habitual e diário para casa, me deparei com um jovem condutor a ler enquanto conduzia. O rapaz, na casa dos trinta, tinha de facto um ar civilizado, culto, bem colocado na vida, barbudo, enfim, com todos os predicados possíveis (à primeira vista, todos positivos) e o carro que conduzia também era civilizado, além de novo, moderno... Mas sim, lia um livro. Isso! Um livro! Com páginas, capa e tudo... Eu bem tinha dito que ele tinha um ar culto e civilizado (e o livro condiz com a descrição, a condução é que não). Estão aí a pensar que estávamos parados no trânsito, mas não, não estávamos num engarrafamento, nem  se vislumbrava nenhum nas imediações. Íamos numa estrada com algumas curvas, com descida acentuada e de trânsito permanente. O livro ia aberto, sim, e eu, que me cruzei com o rapaz por breves instantes, porque seguia no sentido contrário, vi o livro em cima do volante. Até lhe adivinhei as letras, as palavras, as frases...  
   O rapaz seguiu para o seu destino com a normalidade possível. Eu continuei o meu caminho, pensando que há muita gente por aí com muita fé no seu destino...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Há gente que me ultrapassa...




 Íamos a meio do dia, talvez no fim do inverno, começo da primavera. A condução seguia como normalmente e com pouco trânsito (coisa que me deixa feliz). Cheguei a uma rotunda grande, abrandei e entrei calmamente. Mal tinha acabado de entrar na rotunda, vi um pequeno carro que entretanto entrara à minha frente, vindo naturalmente da minha direita. Era uma rapariga jovem. Percebi que ia a falar ao telemóvel. Esta gente não aprende, pensei eu. Uns milésimos de segundo depois, percebi que também fumava. Incrível! É escusado dizer que estava a guiar. Já perceberam, claro! Não me contive e, com o dedo indicador, apontei para a minha cabeça com aquele gesto inequívoco (És maluca!!!) para não dar margem para dúvidas. Eis que, surgindo não sei bem de onde (a rapariga ia sozinha no carro...), levantou surpreendentemente um braço (o terceiro?!) em veemente protesto face à minha indignação. O mundo não para de me espantar!

domingo, 3 de janeiro de 2016

O fricassé



  Se há prato que recordo da minha infância é o fricassé de frango que a minha avó fazia. Nunca mais comi um igual e a receita partiu com ela. Nenhum rascunho, nenhum caderninho guardou o segredo da sua receita. Seria o sabor a limão de que tanto gosto que o tornava especial? Hum… não. Já ensaiei tantas vezes aquele prato e nunca o consegui reconstituir. Seria o sabor dos alimentos de então, já há algumas décadas? O segredo estaria nas mãos da minha avó? Na vida dedicada à casa? Na exímia cozinheira que fora também a minha bisavó? 
  Lembro-me de um dia em particular em que o comi, um daqueles dias que ficam para sempre guardados nas nossas memórias. Ainda nem dez anos teria e estava sentada a almoçar na pesada mas luminosa sala de jantar da minha avó. E era um almoço de família, de certeza. Lembro-me bem em que lugar da mesa me sentei, que o dia nem era claro nem era escuro e recordo bem o tom amarelo do fricassé, salpicado de salsa. Guardo ainda comigo o seu sabor ligeiramente ácido, a textura cremosa, a carne tenra, o arroz perfeito e branco a acompanhar. 
   Volta e meia regresso ao fricassé e àquela sala.

  (à falta de fotografia do original, pretende-se que a que foi colocada seja alusiva ao prato, embora o amarelo não fosse tão forte)
 (ah...e também me lembro da torta com recheio de chocolate, um dia falarei dela também)

sábado, 2 de janeiro de 2016

As nuvens

«As nuvens, meu irmão, são leviandades da criação».

Millôr Fernandes 




   Reais, facilmente explicáveis no mundo físico, as nuvens parecem ser o capricho de um qualquer deus, que, leviano, as criou para nossa contemplação (ou não…) e algumas delas, de tão belas e originais, facilmente me levam a duvidar de todas as teorias e certezas científicas.  
    Brancas, cinzentas, vermelhas, amareladas, cor de rosa, escuras, claras, despertam o desejo de chegarmos até lá acima e flutuar com elas. Em constante movimento, fugidias, rebeldes,  recordam-me ininterruptamente que o tempo não para por mais que queiramos. 
    O cinzento que anuncia uma tempestade é poético e até aconchegante, quando estou do lado de dentro de um vidro e tenho ao meu alcance o calor reconfortante da casa,  de um chá ou de um chocolate quente. No exterior, invade-me uma sensação de liberdade e de purificação trazida pelo vento forte e pela promessa da chuva.
  Brancas, em pequenos flocos, as nuvens fascinam-me e levam-me para um universo infantil, por me fazerem acreditar que são apenas pedaços de algodão que ali flutuam. Sempre que ganham tonalidades ricas e quentes com o pôr do sol, é o próprio pôr do sol que beneficia quando lá estão, espalhadas pelo céu, pois a luz, a cor e as próprias nuvens ganham ainda outra dimensão. Ou talvez não beneficie... a atenção desloca-se para elas, empurrando o Sol para um papel secundário.  Dir-se-ia uma obra efémera e única de um grande artista e que apenas posso tentar tornar eterna através de uma fotografia.







sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A princesa e a ervilha



   Era uma vez uma história de Hans Christian Andersen.

   Em criança, esta história intrigava-me. Como é que uma simples ervilha, tão pequena, tão insignificante,  podia  incomodar alguém, sobretudo quando havia não-sei-quantos-colchões entre a dita ervilha e a suposta princesa?

   Há uns dias, voltando a pensar nesta história (já há muito esquecida), percebi que daria um bom título para o blogue que estava a pensar criar. Porquê? Porque há pequenas coisas que me intrigam, há pequenos gestos que me incomodam, há subtilezas nas palavras, nos olhares dos outros e, por vezes, parece-me que são impercetíveis aos outros. Sou só eu e aquela pequena ervilha. Mas será mesmo assim?  

  E claro que não há apenas ervilhas verdes, há ervilhas de todas as cores, há umas de que gosto, há outras de que não gosto, há umas que me levam ao céu, há outras que me levam ao inferno. E é de todas essas ervilhas que pretendo aqui falar.
  
     Para começar, fica aqui a história original, que me intrigou na infância, mas que li agora com outros olhos. Acreditam em princesas que ficam incomodadas com pequenas ervilhas? Eu já acredito! E que há princesas e príncipes verdadeiros, embora não saiba bem o que isto quer dizer...

«Era uma vez um príncipe que queria casar com uma princesa; mas ela tinha de ser uma princesa de verdade. Ele viajou por todo o mundo para encontrar uma, mas em lugar algum ele conseguiu encontrar o que ele queria. Havia muitas princesas, mas era muito difícil descobrir se elas eram verdadeiras. Havia sempre algumas coisas nelas que não eram como deviam ser. Então, ele voltou para casa novamente e ficou triste, porque ele gostaria muito de encontrar uma princesa de verdade.
Uma noite, caiu uma forte tempestade acompanhada de trovões e raios, e a chuva caía torrencialmente. De repente, alguém bateu no portão de entrada da cidade, e o velho rei foi abri-lo.
Era uma princesa que ali estava em frente ao portão. Mas, que pena! A visão que a chuva e o vento fizeram dela. A água caía de seus cabelos e das roupas, escorria até aos sapatos. No entanto, ela dizia que ela era uma princesa de verdade.
"Bem, logo descobriremos," pensou a velha rainha. Ela não disse nada, foi para o quarto onde a princesa dormiria, tirou todos os utensílios que estavam na cabeceira da cama e colocou uma ervilha no fundo da cama. Depois, mandou colocar vinte colchões em cima da ervilha.
A princesa teria de dormir em cima deles a noite toda. Ao amanhecer, perguntaram-lhe como ela tinha dormido.
"Oh, muito mal!" disse ela. "Nem sequer consegui fechar os olhos a noite toda. Deus sabe lá o que havia na cama, mas eu estava deitada em cima de alguma coisa muito dura, então eu fiquei com o corpo todinho marcado. Foi horrível!"
E foi assim que eles descobriram que ela era uma princesa de verdade, porque ela tinha sentido a ervilha através dos vinte colchões.
Ninguém, exceto uma princesa de verdade poderia ser tão sensível como ela.
Então, o príncipe tomou-a como esposa, pois agora ele sabia que ela era uma princesa de verdade. A ervilha ficou exposta num museu, onde poderia ser vista.»
  
Adaptado daqui.