sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Inverno



    Está frio e o vento corta-me a alma, trespassando as várias camadas de roupa com que decidi  cobrir-me hoje.
   Estoicamente, penso em ir tomar um café à rua (é uma maneira de dizer, pois na rua é que eu não tomava um café hoje!) O vento atravessa tudo, levando algumas palavras que me andavam a remoinhar na cabeça. Ao menos isso. O mundo parece mais leve. As folhas das palmeiras dançam ameaçadoramente. O céu está cinzento e carregado. O vento entra sem ser convidado e sente-se cá dentro. Tremo. Encolho-me. Uma nesga de sol surge, mas o vento continua frio. Desisto. Fico-me pelas boas intenções. O frio venceu. Fico aqui recolhida, encolhida e enrolada num cobertor macio, a beber chá quente. A música adoça-me a alma, embala-me. A noite  chega daqui a pouco. O vento volteia pelo mundo.

Bom fim de semana de inverno.



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A rua do Paraíso


       Há dois dias, li o texto «Beleza» do blogue de Miss Smile, que me deixou a pensar no nosso eterno desejo de felicidade e de perfeição. Algum tempo depois, navegando pela internet, tropecei numa fotografia de uma rua chamada rua do Paraíso. Sorri e pensei... «Que coincidência maravilhosa!». Como seria a vida numa rua onde tudo correria como esperado e onde todos seriam felizes? A felicidade não se conquistaria, seria um dado adquirido... 


    A rua do Paraíso era um lugar muito especial. A felicidade reinava e a perfeição reinava com ela. Sempre em sintonia e em plena concordância. Os dias eram sempre claros, as noites maravilhosamente pintalgadas de estrelas. Numa harmonia perfeita com o dia, só chovia de noite, mas sem que houvesse nuvens (e sem que ninguém questionasse aquele fenómeno ). Chovia quando todos dormiam e dormiam sempre todos às mesmas horas. Ninguém gritava, ninguém chorava, ninguém sofria, não havia necessidade, pois tudo corria como previsto e imperfeição era palavra que não entrava ali.
   As pedras da calçada estavam alinhadas, direitas, iguais umas às outras, sem sobressaltos. O alcatrão estava liso, impedindo a criação de pequenas poças onde se pudesse ver o avesso do mundo e o mundo do avesso. As plantas eram viçosas e havia sempre flores nos locais previstos. Pareciam de plástico de tão perfeitas, religiosamente regadas às mesmas horas pelos seus donos cumpridores. Nas casas, sempre com ar de terem sido acabadas de pintar, as janelas eram todas brancas, lindas e com os vidros a brilhar, sem pó nem mancha de chuva, pois apenas chovia à noite, quando as janelas estavam devidamente fechadas.
  Lá dentro, não havia um cabelo caído e o pó parecia não entrar. Os casacos estavam sempre todos pendurados, as televisões transmitiam imagens de um mundo perfeito e pacificado, as músicas que saíam dos rádios eram sempre alegres e com palavras felizes . Do forno, os bolos saíam sempre perfeitos, sem mácula, como seria de esperar (aliás nem ninguém ansiava por vê-los cá fora, porque o desfecho era conhecido). 
  As histórias dos filmes, das séries, das peças de teatro, das óperas, dos livros…? Era um desfilar de peripécias e de finais felizes. Os corações não aceleravam, pareciam metrónomos bem regulados. Com enredos perfeitos, simples, lineares, que poderíamos esperar? E as músicas? Todas transbordavam felicidade, alegria, perfeição, sempre com o mesmo ritmo, as mesmas sequências, os mesmos acordes, as mesmas palavras.
  Os corações,  claro, batiam todos à mesma velocidade, a tensão arterial estava sempre igual, o colesterol controlava-se a si próprio, o nível de açúcar no sangue era o desejável, os triglicéridos também e por aí adiante. 
   E quanto ao amor? Amor? Não havia paixões arrebatadoras, nem amores à primeira vista, nem olhares furtivos... Nada. Nada saía do expectável. Tudo sempre controlado.  Era a rua do Paraíso.

   

  

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sabedoria popular

    A sabedoria popular tem histórias, provérbios e ditados para todos os gostos e situações. E embora se contradigam muitas vezes ( «Quem espera sempre alcança» e «Quem espera desepera»?!...), todos eles encerram uma grande sabedoria, construída e cimentada por experiências seculares, não respeitando fronteiras físicas. 
   Na que  aqui fica hoje, há uma grande verdade e assim será (parece-me...) enquanto existirem humanos à face da Terra ou fora dela: a história do velho, do rapaz e do burro, que aqui deixo na versão de Sophia de Mello Breyner Andresen. Não haverá tecnologia que resolva esta situação...



O Velho, o Rapaz e o Burro

Um velho, um rapaz e um burro na estrada.
Em fila indiana os três caminhavam.

Passou uma velha e pôs-se a troçar:
-O burro vai leve e sem se cansar!
  
O velho então pra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.

 Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
-Ai, coisa feia! Que triste que é ver!

 O velho no burro, enquanto o rapaz,
Pequeno e cansado, a pé vai atrás!

O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém gritou: 

-Bem se vê que o mundo está transtornado!    
 O pai vai a pé e o filho montado!

O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.

Assim pela estrada seguiram os três:
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:

Um rapaz já grande e um velho casmurro.
São cargas de mais no lombo de um burro!

Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras, sério, falou:

Aprende, rapaz, a não te importar,
Se a boca do mundo de ti murmurar.

Imagem daqui.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

desalentos

  
  Até ao nascer é preciso ter sorte.
  Não no sentido de haver um destino ou algo pré-definido.
  É mesmo preciso ter sorte:
  sorte com a mãe,
  sorte com o pai,
  sorte com o pai e com a mãe,
  sorte com os irmãos,
  sorte com os avós,
  sorte com os tios,
  sorte com os vizinhos,
  sorte com aqueles com quem nos cruzamos,
  sorte com  todas as variantes resultantes da combinação dos elementos anteriores,
  sorte apenas.
  Algo que não se escolhe,
  algo a que não se pode fugir,
  sobretudo se ainda se é criança e não se pode escolher, fugir, resguardar.
  Sorte quando aqueles que é suposto darem proteção são aqueles de quem era preciso saber fugir.
  Não me venham dizer que não.
  Que até ao nascer é preciso ter sorte.
Imagem daqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Bolo de chocolate ao pequeno-almoço



 Há notícias que nos deixam naturalmente felizes e há uns dias deparei-me com uma dessas. Imaginem um título assim: bolo de chocolate ajuda a emagrecer. Há melhor? E não era dia das mentiras, certifiquei-me depois, olhando para o calendário do telemóvel.

 Já se sabia que o chocolate traz bastantes benefícios, mas há dias uma notícia no Telegragh deixou-me à beira da euforia. E isto de sair num jornal estrangeiro, ainda por cima das terras de sua majestade, tem outra força, outra credibilidade.

   Li o título e nem cria nos meus olhos. Resolvi ler outra vez. Ah! Mas (há sempre um «mas»)... ainda nem me tinha refeito de tanta felicidade e já estava uma nuvem negra a pairar! Leiam, leiam o título com atenção...

Chocolate cake breakfast could help you lose weight 

  Perceberam?! Bolo de chocolate ao pequeno-almoço pode ajudá-lo a perder peso. Perceberam?! «Could?» (ou seja, «pode»). Isto é coisa que se faça? Ainda uma pessoa nem chegou a meio do título e já a felicidade começa a esmorecer. O «pode» deixa algumas reservas... afinal o bolo de chocolate ao pequeno-almoço não resulta sempre? Eu já desejosa de procurar mil e uma receitas de bolos de chocolate (que existem de certeza, se calhar mais do que as de bacalhau) e um mísero verbo («could») a estragar-me a festa! É que eram duas palavras mágicas: chocolate e emagrecer! Ainda por cima juntas! Há alegria maior?! Bem, vamos acreditar que a sorte vai bafejar-nos e que somos aqueles felizardos a quem o bolo de chocolate emagrece, se ingerido ao pequeno-almoço...

  Desde o tempo em que a minha querida (e naquela altura futura) sogra me pôs uma ervilha debaixo de uma enormidade de colchões, os quilos foram-se acumulando. Os banquetes e as obrigações oficiais não me largam (sempre com petiscos pelo meio, lanches e lanchinhos, brunch e jantares reais....um sem fim de refeições às quais não me posso esquivar).  Se fosse agora, a ervilha teria ficado toda espalmadinha. Claro que há aqui algum exagero, mas a balança aqui do palácio não me engana, portanto vou experimentar as dicas do afamado jornal inglês. 

  Antes de ir procurar receitas novas, começo por esta receita que está na família quase desde o tempo em que o cacau foi trazido das américas (sim, hoje estou um pouco dada a exageros...). Este bolo tem a vantagem de ter pouco açúcar, mas se forem um pouco gulosos, podem acrescentar mais um pouco. Até ao dobro da dose, se forem mesmo, mesmo gulosos. Mas depois não digam que a estratégia não funciona...




  Ingredientes 
 1 caneca de farinha branca
 1 cabeca de farinha integral
 1 caneca de açúcar mascavado
 1 caneca de chocolate em pó (metade pode ser cacau)
 1 caneca de óleo
 1 caneca de leite quente
 1 colher de chá de fermento
 1 colher de chá de bicarbonato de sódio
 4 ovos médios

  Preparação
  Coloque os primeiros 6 ingredientes numa taça e misture-os bem para o bolo  ganhar ar e ficar bem fofo. Junte os ovos, o fermento e o bicarbonato de sódio. Misture bem. Coloque numa forma untada com manteiga e polvilhada com farinha. Leve a forno pré-aquecido a 180 graus durante 40 a 50 minutos.

  Depois, já sabe: é comê-lo (só) ao pequeno-almoço.

Desenho daqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Espelho meu



  A televisão estava ligada e o noticiário corria com as notícias habituais. Quebrando a rotina das desgraças diárias, o jornalista referiu-se a um anúncio recente com modelos femininos na casa dos cinquenta anos. Aí, pressentindo um tom dissonante, ela levantou os olhos. Pensou «Tchiii, 50!!!» Parou. «Espera aí! 50!?  Não estou assim tão longe!». Mais tarde, quando assistiu à reportagem, observou aquelas mulheres cheias de confiança nas suas cinco décadas. Reviu-se em alguns dos seus traços, naqueles que acusam a passagem do tempo. «A dificuldade que uma pessoa tem em perceber que o tempo passa para todos!Aliás, que passa também por mim!»,  pensou. . «E andamos nós sempre a falar sobre o tempo!  Do tempo cronológico, não do tempo atmosférico, embora desse também se fale....»

   Lembrou-se de uma fotografia recente e do que tinha pensado: «Estou assim?» Não se reconhecera naquela mulher de rosto mais largo, pálpebras mais descaídas, cabelo mais quebradiço... A imagem que tinha de si era diferente. Nessa imagem, guardada como uma fotografia, o tempo parara e ainda era jovem. Os anos tinham passado, mas por dentro persistia de si uma figura diferente. A imagem da fotografia dissera-lhe que envelhecera. Chegou-se junto do seu espelho e quis confirmar. «Nã... fiquei mal na fotografia.» Algumas poses depois, verificou que a fotografia revelara algumas facetas que não queria admitir ter. Nada a fazer! O tempo também passava por ela. E deixara marcas! «Pensavas que era só para as outras, não?!». Concluiu que a imagem diária que via no espelho não refletia a imagem real, mas sim aquela que criara algures no tempo, no auge da sua juventude e beleza. A fotografia traíra-a, a si e ao espelho que quotidianamente a acompanhava há anos a fio.

 O companheiro, estranhando tanta demora e observação frente ao espelho, mas adivinhando-lhe as deambulações, sussurou-lhe, puxando meigamente pela sua mão.

 - Vem comigo.

 Chegaram à sala e ele pegou no ipad. Procurou um vídeo que vira há uns anos. Sabia que aquele dia chegaria e aquele era o momento ideal para lho mostrar. Sentaram-se no sofá de sempre. Rodeou-a com um abraço terno  e o vídeo começou.





   Ela sorriu e retribuiu o abraço. Não foram precisas palavras. De seguida - e porque ele gostava de a pôr a rir - mostrou-lhe outro vídeo.



   E, cúmplices, demoraram-se a rir no sofá de sempre.

  
 Imagem daqui.

Nota: a tradução do primeiro vídeo deixa bastante a desejar, no segundo não há, mas os diálogos são semelhantes e as imagens valem por si. :)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Num dia de chuva também se pode ser feliz

«Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade».

  Carlos Drummond de Andrade 





«To the town we'll go
And to your hideaway
Where the towers grow
Gone to be far away
Sit quietly
Alone»

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

No aeroporto

  

   O aeroporto sempre me pareceu um lugar mágico. Quando era criança, fui lá algumas vezes buscar familiares e lembro-me de olhar fascinada para a saída dos passageiros como uma porta mágica por onde chegavam pessoas cheias de histórias por contar. Invejava-as, mas era uma inveja saudável, boa, porque ficava feliz por elas terem  viajado, por terem vivido experiências únicas e também porque alimentava os meus sonhos. Tentava imaginar de onde vinha cada família, cada grupo, cada casal, cada viajante solitário. Observava os sacos e as malas que traziam, à procura de uma pista que me indicasse as suas proveniências. Sabia que cada um desses passageiros transportava em si uma história única que ansiava conhecer. Sabia que era impossível adivinhar-lhes as histórias, mas esse desejo permanecia em mim e sonhava com o dia em que eu própria sairia por aquela porta. Esse dia aconteceu quando já não era uma criança e trouxe comigo uma história inesquecível, a primeira de uma mão cheia delas que não quero esquecer. De cada vez que saio por aquela porta, revejo-me ali, daquele lado, nas chegadas, e procuro a criança que sonha com as histórias trazidas de outros lugares. 


Imagem daqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Os cheiros

 

     Há algum tempo, li um texto - Rua da Alegria - que me fez pensar na importância que os cheiros têm nas nossas vidas.  E muito mais do que aquilo que queremos consciencializar. Os cheiros são capazes de nos afastar de algo ou de alguém, de nos cativar, de despertar em nós a paixão...

  Lembro-me dos cheiros da minha infância (muitos e bons) e percebo como são importantes naquilo que sou hoje.  Perco-me a pensar nos cheiros e eles levam-me numa inevitável viagem no tempo.
 
   Sem que me aperceba, o cheiro do pão quente, sobretudo se me apanha no meio de uma rua, ao ar livre, transporta-me para a aldeia da minha avó, onde uma vez, num sábado de manhã, me lembro de comer (devorar...) um pão que era apenas o melhor do mundo.

  Outro cheiro único para mim é o da terra molhada, no verão, quando acabou de chover. É imperativo que esteja calor. O cheiro não é o mesmo, se a chuva não cair na terra quente e seca. Quando assim acontece, estou de novo no campo, na quinta dos meus avós, onde ia nos verões da minha infância.

  Mas o cheiro da manhã é para mim o melhor. Quando acabo de acordar e tenho tempo de abrir a janela com a calma que é necessária nestes momentos, vou de propósito lá para fora para sentir esse cheiro que me dá força, que me lembra a infãncia e que traz a esperança de que, naquele dia e daí para a frente, tudo vai ser simples e possível de alcançar. Tudo isto por ter ido, quando era criança, para o ar livre, no campo, em dias quentes, luminosos e longos, e por isso mesmo felizes e intermináveis.



Imagem daqui.