quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A rua do Paraíso


       Há dois dias, li o texto «Beleza» do blogue de Miss Smile, que me deixou a pensar no nosso eterno desejo de felicidade e de perfeição. Algum tempo depois, navegando pela internet, tropecei numa fotografia de uma rua chamada rua do Paraíso. Sorri e pensei... «Que coincidência maravilhosa!». Como seria a vida numa rua onde tudo correria como esperado e onde todos seriam felizes? A felicidade não se conquistaria, seria um dado adquirido... 


    A rua do Paraíso era um lugar muito especial. A felicidade reinava e a perfeição reinava com ela. Sempre em sintonia e em plena concordância. Os dias eram sempre claros, as noites maravilhosamente pintalgadas de estrelas. Numa harmonia perfeita com o dia, só chovia de noite, mas sem que houvesse nuvens (e sem que ninguém questionasse aquele fenómeno ). Chovia quando todos dormiam e dormiam sempre todos às mesmas horas. Ninguém gritava, ninguém chorava, ninguém sofria, não havia necessidade, pois tudo corria como previsto e imperfeição era palavra que não entrava ali.
   As pedras da calçada estavam alinhadas, direitas, iguais umas às outras, sem sobressaltos. O alcatrão estava liso, impedindo a criação de pequenas poças onde se pudesse ver o avesso do mundo e o mundo do avesso. As plantas eram viçosas e havia sempre flores nos locais previstos. Pareciam de plástico de tão perfeitas, religiosamente regadas às mesmas horas pelos seus donos cumpridores. Nas casas, sempre com ar de terem sido acabadas de pintar, as janelas eram todas brancas, lindas e com os vidros a brilhar, sem pó nem mancha de chuva, pois apenas chovia à noite, quando as janelas estavam devidamente fechadas.
  Lá dentro, não havia um cabelo caído e o pó parecia não entrar. Os casacos estavam sempre todos pendurados, as televisões transmitiam imagens de um mundo perfeito e pacificado, as músicas que saíam dos rádios eram sempre alegres e com palavras felizes . Do forno, os bolos saíam sempre perfeitos, sem mácula, como seria de esperar (aliás nem ninguém ansiava por vê-los cá fora, porque o desfecho era conhecido). 
  As histórias dos filmes, das séries, das peças de teatro, das óperas, dos livros…? Era um desfilar de peripécias e de finais felizes. Os corações não aceleravam, pareciam metrónomos bem regulados. Com enredos perfeitos, simples, lineares, que poderíamos esperar? E as músicas? Todas transbordavam felicidade, alegria, perfeição, sempre com o mesmo ritmo, as mesmas sequências, os mesmos acordes, as mesmas palavras.
  Os corações,  claro, batiam todos à mesma velocidade, a tensão arterial estava sempre igual, o colesterol controlava-se a si próprio, o nível de açúcar no sangue era o desejável, os triglicéridos também e por aí adiante. 
   E quanto ao amor? Amor? Não havia paixões arrebatadoras, nem amores à primeira vista, nem olhares furtivos... Nada. Nada saía do expectável. Tudo sempre controlado.  Era a rua do Paraíso.

   

  

12 comentários:

  1. É por isso que não moro na Rua do Paraíso. Mas gostei dessa dos bolos saírem sempre perfeitos :)

    Um beijinho, Princesa

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    1. Nem sei se vem no google maps... :)

      Outro beijinho, Miss Smile.

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  2. Excelente esquisso da rua do Paraíso, Princesa. Dá que pensar, de facto dá. Eu gostei da parte de não haver cabelos no chão, porque desse sofro muito cá em casa com três cabeleireiras compridas em crescimento. :-)
    Mas sobretudo gostei de ter ficado a pensar. Obrigada, Princesa.
    Um beijinho.

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    1. Essa dos cabelos também gostava e de mais uma ou outra, mas também fiquei a pensar no texto de Miss Smile e encontrei-me depois a valorizar as imperfeições da vida.

      Obrigada. :)

      Outro beijinho.

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    2. Não era cabeleireiras, era cabeleiras, peço desculpa.

      Os textos da nossa querida Miss Smile também dão que pensar, sim.
      Vai outro beijinho, Princesa. Uma boa noite. :-)

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    3. Percebi que eram cabeleiras. :)

      Sim, fazem-nos pensar. :))

      Bjs

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  3. Está-me cá a parecer que não ia querer morar nessa rua - só porque eu prefiro os bolos que desmancham, claro :)

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    1. Depois de a imaginar, comecei a pensar nos aspetos negativos inerentes a tanta perfeição. Parece-me uma rua bastante enfadonha, bonita, mas muito monótona. E concordo: os bolos desmanchados às vezes pertencem a outra dimensão! :)

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  4. Gostei da parte em que chove só à noite. Adoro estar no aconchego dos meus lençóis e ouvir chover lá fora. E gostei de muitas coisas mais. No entanto, a dado momento comecei a achar que perfeição pode tornar-se monótona. Precisamos de unas abalos de vez em quando para, de seguida, melhor apreciar o paraíso. :)

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    1. Foi mesmo nisso que pensei quando comecei a imaginar esta rua. :)

      Obrigada pela visita.

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  5. Paraíso não sei não
    Prefiro que de vez em quando os bolo fiquem enqueijados :)

    Blog LopesCa/Facebook 

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    1. Sim, já saber como tudo vai correr é bastante enfadonho. ;)

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