sábado, 19 de março de 2016

ausência

...
na luz ainda acesa
nas janelas abertas para a escuridão da noite
nos objetos espalhados pela casa
nos restos de maçã em cima da mesa
no telemóvel que ainda tocava
percebia-se que a vida passara por ali
mas
um silêncio imenso 
e uma quietude absoluta
anunciavam uma ausência sem fim 
...

terça-feira, 15 de março de 2016

Por vezes também há dias assim na primavera

   Um poema belíssimo.

   Há poemas tão perfeitos, tão belos quanto verdadeiros, como este de David Mourão- Ferreira.

  ... as noites que duram meses, os meses oecanos...
  ... os abraços que já não os mesmos...
  e quando num segundo se evolam tantos anos...




sexta-feira, 11 de março de 2016

primavera

   O calendário diz-me que ainda não é primavera, mas a natureza não liga ao calendário e vai surgindo aos poucos, nos dias mais longos, nas flores que, no meu jardim, me surpreendem a cada dia.



quarta-feira, 9 de março de 2016

O dia em que o bosque real quase foi arrasado por causa de uma gripe


   Os homens precisam de algo que os ocupe e, sobretudo, não podem adoecer! Cheguei a esta brilhante conclusão, depois de ter o meu príncipe vários dias em casa, combalido com uma gripe...
   Primeiro chegou o frio, um frio que não o  largava. Pensei e desejei entre dentes: «Está frio, isto já passa.» e disse «Foste à fresca! Tens a mania que é verão».  Mas o frio continuou. Nem a lareira nem chá o aqueciam. Horas e vários espirros depois, veio a confrmação. O frio não o largava mesmo e a temperatura subia. Nada a fazer.O meu príncipe estava com gripe. «Ui!» «Credo!» Já vos oiço a dizer... e sim, um príncipe com gripe não é diferente de qualquer outro homem, seja rei, padeiro, engenheiro ou marinheiro. Sofre, e muito, muito mesmo. Camadas de cobertores, chás, canjas, roupão, paracetamol... mais outro pijama. nada chegava para o consolar e confortar.Quanto a mim, estive à beira de um ataque de nervos (desculpa, Almodóvar, invocar assim o nome do teu filme...). Não há medicamentos, chás, mezinhas, canjas suficientes que acalmem o sofrimento de um homem. 
   As galinhas cá do palácio pressentiram que havia qualquer coisa de diferente, à medida que os dias avançavam e as suas companheiras desapareciam, imediatamente depois da visita da cozinheira. Passaram, pois, a esconder-se sempre que ela voltava a entrar no galinheiro. O que a pobre mulher correu para agarrar as galinhas na tentativa inglória de apaziguar os sintomas de tão cruel maleita! Entretanto,no quarto real, os espirros sucediam-se em catadupa.Uma resma de pessoas acotovelava-se na tentiva de minorar o sofrimento causado por esta gripe real. Lenha foi deitada ininterruptamente na lareira para que o frio que o invadia passasse,  com custos razoáveis no nosso bosque real, pois os lenhadores trabalhavam dia e noite. Também o pomar sofreu um desbaste assinalável, por causa dos chás de limão e dos sumos de laranja. Entrei várias vezes por dia no quarto para o confortar («na saúde e na doença...») e invadia-me sempre um  calor tropical causado pela lareira que fazia arder a lenha no máximo da sua capacidade. «Está demasiado calor» pensei e disse «Querido, está muito quente! Não podes estar assim no meio deste calor, dado que estás com febre». Mas qual quê? Que sabia eu acerca do assunto, quando estava a ser bafejada pela sorte por o vírus (ainda) não me ter atingido?!»  
   Escrevo agora para vos informar que  sobrevivi (e o meu príncipe também). Passados sete dias, voltou alegremente para o seu trabalho para felicidade das galinhas, da cozinheira, dos animais do bosque, dos lenhadores, dos pássaros do pomar e, naturalmente, de mim própria, que, finalmente, já não tenho de baixar o tampo da sanita de cada vez que vou aos «toilettes» reais. Ufa!!

Imagem daqui.

domingo, 6 de março de 2016

Caixa de música

  A princípio, o branco cor de marfim levou-me a acreditar ser um esqueleto de um animal pré-histórico descoberto recentemente. Depois, percebi que era qualquer coisa relacionada com a música e os meus neurónios lançaram um alerta. Comecei a ver o vídeo e percebi que era uma caixa de música muito sofisticada. Uma mistura de brinquedo infantil (encaixes de madeira, esferas de metal, gravidade, percursos...) e de caixa de música. 
  Por muito que me fascine ver e ouvir esta caixa de música, não devo conseguir imaginar a satisfação de quem a construiu, tendo em conta o tempo e os cáculos que teve de realizar.  

   Muito engenhoso...




(texto editado)

sábado, 5 de março de 2016

Avó



 O corpo não obedece, mas a cabeça revela uma lucidez que me espanta, apesar dos seus quase cem anos.
  O seu sorriso recebe-me sempre, sem queixas, e ao pé dela quero ser outra vez menina. Mas não posso. Está velhinha, muito velhinha. Oiço as suas memórias, olho para as fotografias que a rodeiam e lembro-me que ela não foi sempre assim. Já não pode ser ela a cuidar de mim. As fotografias que a rodeiam recordam-me aqueles de quem ela já teve de se despedir. Uns há muito tempo, outros há menos. Aqueles de quem era suposto despedir-se, outros que não.
  Pergunto-me quantos mundos teve de ir construindo e deixando ao longo da sua vida de quase um século. Será aquele em que vive o último? Ou terá ainda de construir mais algum? Desejo que não tenha de se confrontar com mais uma perda. Desejo que só tenha de construir um mundo, se for para receber mais alguém. Quero poupá-la ao sofrimento e ela quer poupar o meu, o nosso, sorrindo e parecendo estar bem com a vida, aceitando aquilo que ela lhe vai tirando e ainda vai dando. A idade ensina-nos tanto, penso. Mas pressente-se que vive(mos) um tempo de espera, de fragilidade...às vezes com uma calma desconcertante.
 Que esperança pode ainda ter, quase aos cem anos, quando tem a cabeça mais lúcida do que o corpo?



  Imagem daqui.

quarta-feira, 2 de março de 2016

P de Princesa

 

 
   A P. era uma verdadeira princesa. Partiu há cinco anos. De repente, sem aviso.  
   Lidei com ela pouco tempo, não houve tempo para mais.  E não terá sido por acaso que o seu nome começava por P, um P de Princesa. Tornei-me rapidamente sua amiga, devido à sua simpatia, à sua simplicidade. O mérito foi todo dela. Também não gostava de incomodar ninguém. No trabalho que nos uniu, fomos cúmplices e entendemo-nos sempre, quase que líamos o pensamento, as ideias uma da outra. Trabalharmos juntas foi um daqueles acasos felizes.

  P., deixo-te aqui uma das orquídeas de que tanto gostavas e de facto não haverá outra flor que melhor condiga contigo. Esta parece ter nascido ali, inesperadamente, no tronco de uma árvore, e estou certa  de que plantaste muitas flores nos sítios por onde passaste. Elas estão por aí a florir.



Imagem daqui.