sábado, 5 de março de 2016

Avó



 O corpo não obedece, mas a cabeça revela uma lucidez que me espanta, apesar dos seus quase cem anos.
  O seu sorriso recebe-me sempre, sem queixas, e ao pé dela quero ser outra vez menina. Mas não posso. Está velhinha, muito velhinha. Oiço as suas memórias, olho para as fotografias que a rodeiam e lembro-me que ela não foi sempre assim. Já não pode ser ela a cuidar de mim. As fotografias que a rodeiam recordam-me aqueles de quem ela já teve de se despedir. Uns há muito tempo, outros há menos. Aqueles de quem era suposto despedir-se, outros que não.
  Pergunto-me quantos mundos teve de ir construindo e deixando ao longo da sua vida de quase um século. Será aquele em que vive o último? Ou terá ainda de construir mais algum? Desejo que não tenha de se confrontar com mais uma perda. Desejo que só tenha de construir um mundo, se for para receber mais alguém. Quero poupá-la ao sofrimento e ela quer poupar o meu, o nosso, sorrindo e parecendo estar bem com a vida, aceitando aquilo que ela lhe vai tirando e ainda vai dando. A idade ensina-nos tanto, penso. Mas pressente-se que vive(mos) um tempo de espera, de fragilidade...às vezes com uma calma desconcertante.
 Que esperança pode ainda ter, quase aos cem anos, quando tem a cabeça mais lúcida do que o corpo?



  Imagem daqui.

2 comentários:

  1. Não sei responder à sua pergunta, querida Princesa, mas sempre ouvi da boca de muitos idosos, cujo espírito parece ser mais novo do que o corpo, que gostam muito de cá andar. Talvez a esperança esteja refletida no rosto dos filhos, netos e bisnetos.

    Um beijinho :)

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    1. Deve ser isso, querida Miss Smile, mas não posso deixar de admirar a sua serenidade.

      Outro beijinho :)

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