terça-feira, 26 de abril de 2016

as malas dos filmes

 
  Ontem, num filme, vi uma cena em que as personagens transportavam malas de viagem que estavam visivelmente pesadas. «Finalmente!», pensei. 
  As cenas em que as malas balançam de um lado para o outro deixam-me sempre de pé atrás relativamente ao aderecista e ao realizador (para não falar do filme). Será que pensam que não reparamos nestes pormenores?

 [também há bons filmes com malas oscilantes...]
 [e  não precisam de encher as malas com chumbo, mas umas coisitas lá dentro fazem milagres...]


Imagem daqui.

sábado, 23 de abril de 2016

pequenez

Era uma vez um homem que vivia dentro de um copo
E tão pequeno era o seu mundo
Que sempre que suspirava crescia uma tempestade


[também podia ser uma mulher...]

quinta-feira, 21 de abril de 2016

fel

  O dia de trabalho começou com alguém aos gritos. Sem razão, a pessoa deitava, pela boca, pelos olhos, pelo corpo todo, o fel que lhe percorre as veias, as artérias, o fel que lhe amarga a cabeça, o coração e o estômago...enfim, a vida. Fiquei impávida e deixei que o fel saísse e que a fonte esgotasse. Mas não foi isso que aconteceu. Parecia uma fonte interminável e, quando parou de vomitar o fel que lhe envenena a vida, lá continuou o seu caminho, cheia de si, realizada por causa de uma mesquinhez que começou exatamente por uma falha da sua parte e que não tem qualquer importância na vida de ninguém, a não ser na dela. Não seria verdadeira se dissesse que estas coisas não me incomodam. Incomodam! Incomodam pela injustiça que lhes está inerente e nem me apraz pensar que o pior é para aquela que, em vez de sangue, tem fel a passar-lhe pelo coração.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Amizade em estado puro



  A palavra que de imediato associo à amizade é lealdade. Sou leal até poder ou até me deixarem. Na amizade, interessa-me apenas a felicidade do outro, o seu bem estar.
 
  Sempre achei de uma grande banalidade as pessoas que chamam «amigo» a toda a gente. Mesmo quando era criança. Lembro-me da estranheza de ter ouvido alguém, também na altura bem novo, dizer «Ontem, conheci um amigo...»...
  Pensava por vezes que era eu que era esquisita, mas continuei firme no meu propósito de chamar amigas apenas àquelas pessoas com quem me sentia bem e que me transmitiam confiança. Também tive surpresas, mas vamos aprendendo que não controlamos tudo nem todos e que, tal como os outros, também nos enganamos. Por vezes é a vida que dá umas reviravoltas e sabe-se lá o que passa pela cabeça das pessoas... Outras vezes, são circuntâncias que surgem e que acabam por revelar características que nunca víramos ou não queríamos ver... 

 
Imagem daqui.

sábado, 9 de abril de 2016

ali mesmo, junto das portas do céu



«Cantique de Jean Racine» de Gabriel Fauré (op.11)

 Orquestra e coro de Paris dirigidos pelo maestro Paavo Jarvi.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

seguindo as linhas tortas da vida


 Um chão de madeira leva-me a lugares que já não existem e a tempos em que tudo era ainda possível. Não estou a falar de soalhos flutuantes, nem de um parquet todo direitinho, geometricamente colocado. Nada disso. Falo de madeira, madeira mesmo: madeiras antigas, seculares, irregulares, longas, da largura de um tronco de árvore, cheias de nós escuros - também irregulares - madeiras cheias de linhas, também elas irregulares, tudo natural e maravilhosamente imperfeito. Nessas tábuas, fui trilhando os caminhos da minha infância,  ladeada pelos meus avós, seguindo e sendo seguida por eles... e é incrível como, nos poucos anos em que convivemos, antes que a morte mos levasse, essa madeira do chão das suas casas me tenha marcado tanto. 
 As tábuas já não existem, ou pelo menos já não fazem parte do meu quotidiano, mas continuam na minha vida como um legado e, de todas as vezes que vejo um chão desses, penso nos dias em que calcurreava os labirintos de madeira que existiam na imensidão daquelas casas.  Ainda lhes leio as linhas sem fim e parece que ainda é nelas que vai sendo escrita a minha vida.