sexta-feira, 8 de abril de 2016

seguindo as linhas tortas da vida


 Um chão de madeira leva-me a lugares que já não existem e a tempos em que tudo era ainda possível. Não estou a falar de soalhos flutuantes, nem de um parquet todo direitinho, geometricamente colocado. Nada disso. Falo de madeira, madeira mesmo: madeiras antigas, seculares, irregulares, longas, da largura de um tronco de árvore, cheias de nós escuros - também irregulares - madeiras cheias de linhas, também elas irregulares, tudo natural e maravilhosamente imperfeito. Nessas tábuas, fui trilhando os caminhos da minha infância,  ladeada pelos meus avós, seguindo e sendo seguida por eles... e é incrível como, nos poucos anos em que convivemos, antes que a morte mos levasse, essa madeira do chão das suas casas me tenha marcado tanto. 
 As tábuas já não existem, ou pelo menos já não fazem parte do meu quotidiano, mas continuam na minha vida como um legado e, de todas as vezes que vejo um chão desses, penso nos dias em que calcurreava os labirintos de madeira que existiam na imensidão daquelas casas.  Ainda lhes leio as linhas sem fim e parece que ainda é nelas que vai sendo escrita a minha vida.




8 comentários:

  1. Acontecia-me parecido com os desenhos das carpetes das casas por onde cresci.
    Que texto bonito, Princesa!
    :-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A infãncia marca-nos para sempre, só pode ser isso.

      Obrigada, Susana. :)

      Eliminar
  2. A infância é uma casa onde podemos sempre regressar.
    Gostei tanto do texto, Princesa!

    Um beijinho :)

    ResponderEliminar
  3. Compreendo tão bem essa nostalgia dessas madeiras toscas. As casas que associo às minhas férias na aldeia, na infância e na juventude, todas tinham chão de soalho, feito de tábuas (muitas de castanho) irregulares, como a varanda de que guardo algumas das melhores recordações.
    Um texto bonito, sobre um tema que me surpreendeu, pelo que tem de inusitado. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que bom saber que a minha nostalia não é única... :)

      Obrigada. :)

      Eliminar
  4. Há coisas, lugares, às vezes até cheiros! que nos marcam assim. Estão entranhados de tal maneira em nossas memórias, como uma tatuagem indelével.
    Regra geral têm o condão de nos trazer a melancolia, às vezes até nos apertam o coração e a garganta. Mas, apesar disso, são importantes, são parte do legado que nos ficou e enquanto as tivermos presentes, elas vivem, ainda que já desgastadas fisicamente.
    Bela prosa a abrir um pouco da alma ;)
    bj amg

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá novamente, Carmem

      Para mim, um chão desses e janelas de madeira, com portadas também de madeira enviam-me irremediavelmente para o passado e lembram-me tempos bem passados.
      Mais uma vez obrigada. :)

      Outro beijo.

      Eliminar