sexta-feira, 20 de maio de 2016

domingo, 15 de maio de 2016

dias

... há dias que são de espera e que poderão ser especiais pelas piores ou melhores razões, mas não deixam de ser dias das nossas vidas, podendo ser apenas dias corriqueiros nas vidas dos outros e até das nossas,
o mundo continua a girar, o sol põe-se, a porta do prédio faz barulho quando é fechada - mesmo que as nossas vidas estejam em suspenso - a chuva cai, o vento agita as folhas, as flores, alguém passeia o cão mesmo à nossa frente, as crianças correm e brincam como se tudo fosse eterno...

domingo, 8 de maio de 2016

quem anda à chuva molha-se

  Dizem-se tantas banalidades por aí e são tão verdadeiras, mas há um dia em que elas fazem sentido na nossa vida e aí deixam de ser banalidades. A sabedoria popular é imensa e nela podemos buscar algum conforto. Se há ditados que se podem aplicar a tantas situações é porque já houve um mar de gente a viver situações  semelhantes, permitindo a criação desses ditados e é aí que chegamos ao conforto, ao não nos sentirmos sós:  fazemos parte de um todo e somos apenas mais alguém que experencia o mesmo.
  A realidade às vezes escapa-nos, mas quando acaba, finalmente, por chegar até nós, há que perceber que há sempre outro lado. Ela, a realidade, estava lá e mais cedo ou mais tarde haveria de chegar. Não é fechando os olhos que ela deixa de existir. Às vezes simplesmente não soubemos ler os sinais, os avisos, os indícios...Quando não é boa e nos apanha desprevenidos, temos de procurar ver o lado positivo do reverso da medalha...não é imediato, nem isso seria possível. A dor impede-nos de o ver. De início parece-nos que nem sequer existe, mas ele acabará por aparecer. Há que dar tempo ao tempo e esse lado positivo vai surgir, depois de muita dor, sofrimento, amargura. A vida segue em frente, o passado não se apaga, mas erguemo-nos mais fortes e mais seguros, depois de, pelo caminho, termos lembrado outros tantos ditados («Elas não matam mas moem», por exemplo..) para nos ajudar a chegar ao reverso da medalha, que não tem de ser necessariamente negativo.

domingo, 1 de maio de 2016

os lugares vazios





já há tantos lugares vazios, mãe


Não o merecias, mãe. A vida prega-nos partidas e aí percebemos que não somos imunes às histórias tristes que ouvimos tantas vezes. Acontece-nos a nós também. Não é só aos outros. Nós, afinal, também somos os outros para alguém. E ser mãe não acaba nunca. Mas não o sabemos antes de o ser. Percebemos apenas quando a vida nos põe à prova. Já era tempo de teres descanso, calma, tranquilidade, já deverias ter apenas aquela sensação de dever (bem) cumprido, e eis que a vida te prega uma partida, das grandes. E os teus olhos de mãe rejeitam aquilo que deverias ver. Mas percebo-te: simplesmente não podes deixar de ser mãe. 


... já há tantos lugares vazios, como no poema...e eles já estavam assim, nós é que não víamos...



«na hora de pôr a mesa, éramos cinco: 
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs 
e eu. depois, a minha irmã mais velha 
casou-se. depois, a minha irmã mais nova 
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, 
na hora de pôr a mesa, somos cinco, 
menos a minha irmã mais velha que está 
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu 
pai, menos a minha mãe viúva. cada um 
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui. 
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. 
enquanto um de nós estiver vivo, seremos 
sempre cinco. »

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas