sexta-feira, 17 de junho de 2016

no tempo

  O tempo vai passando e há cada vez  mais datas que me lembram alguma ocasião especial, nem sempre pelas melhores razões, mas todas elas fazem parte da vida (dos outros, da minha também) e são sinal de que estou viva e de que sinto. Nos lugares vazios, nas ausências, vou conseguindo encontrar a presença dos seus legados. É preciso saber deixar ir o que não pode ser trazido de volta. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

devíamos transformarmo-nos em nuvens


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira

domingo, 5 de junho de 2016

ainda os dias

   De manhã, muito cedo mesmo, aliás, de madrugada, fui até lá fora. A temperatura já era amena e ouviam-se e viam os pássaros que  cantavam e voavam, livres. O Sol começava a surgir. E nada mais se ouvia, a não ser o dia que começava. Todo o espaço em meu redor estava liberto de pessoas, que certamente dormiam, tantas eram as janelas cerradas. Algo me apertou por dentro, ao receber assim  este dia que continua a ser de espera, Por agora, os pássaros continuam, livres, felizes, a cantar e a voar. O Sol já vai mais alto, as pequenas nuvens dissiparam-se. Não tarda nada, ouvir-se-ão as portas a bater, os carros a andar, verei as pessoas a passear os cães, as crianças continuarão a  brincar como se tudo fosse eterno, enquanto por aqui o tempo continua de espera e a vida, suspensa, se arrasta, esperando a notícia que terá inevitavelmente de chegar.