segunda-feira, 6 de junho de 2016

devíamos transformarmo-nos em nuvens


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira

4 comentários:

  1. Era bom ser nuvem.
    Mas, seria justo aos que ainda restavam vivos, ao fim de determinado tempo, não muito, dada a quantidade de gente!, terem um céu tão carregado de nuvens? Conseguiria o sol atravessar camada espessa, quase sólida, de nuvens?
    Há sempre um "mas" nos sonhos.
    bj amg

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    1. Esquecemo-nos desses pormenores quando sonhamos e desejamos um fim sem sofrimento.

      Bjs

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  2. Seria bom que assim fosse - um céu repleto de fiapos de nuvens a balouçar ao vento, abrindo uma clareira para o sol passar.

    Um beijinho, querida Princesa

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    1. Um dia gostava de me transformar em nuvem...

      Outro beijinho, querida Miss Smile.

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