quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

«Todo o mundo é composto de mudança» *

   Cheguei à janela e vi o Sol, vermelho, multiplicado numa dezena de janelas a nascente. Virei-me para o ver a poente. Ao contrário do que esperara, e em seu lugar, vi tijolos e vigas de cimento. Na voragem dos dias, tinha-me esquecido que um prédio se tem erguido no fim da minha rua. Um vazio inundou-me por instantes... Pensei depois que era um disparate da minha parte, já sabia que aquilo ia acontecer. Por aqui, o pôr do sol jamais será o mesmo, não voltarei a ver, neste meu recanto, os tons avermelhados que ainda me surpreendem. Agora, a minha rua já não é infinita. O Sol continua a sua viagem, continua a pôr-se e outros, no fim da minha rua, apreciarão - espero eu -  a sua beleza ao deitar-se no horizonte.  Guardo comigo todos os pores-do-sol que vi daquela janela e anseio pelos outros que ainda espero vir a ver do outro lado da minha casa.


sábado, 10 de dezembro de 2016

(re)encontro


Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
.
- Carlos Drummond de Andrade



sábado, 3 de dezembro de 2016

dia de chuva

Dia de calma e de reclusão, de perder a noção das horas. O tempo estende-se, estica-se. A chuva esconde a luz do dia e as horas parecem não avançar. Vi um bom programa e naturalmente não fiquei surpreendida com aquilo que ouvi. Há pessoas que traduzem de forma tão simples os medos que nos vagueiam pela alma. Pelo meio, o tema do humor e o que ele poderá significar de mais profundo. Fiquei aqui o resto da tarde a refletir sobre a finitude de tudo e sobre o significado da vida. Apreciei (melhor) ainda o espetáculo do movimento das nuvens, da chuva a cair, enquanto ficava reclusa do sofá e dos braços que me aconchegam.    



 

[uma das escolhas de RAP no programa «Alta Definição»]