sábado, 10 de dezembro de 2016

(re)encontro


Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
.
- Carlos Drummond de Andrade



2 comentários:

  1. Esta é uma mais belas versões que conheço. Drummond de Andrade teria gostado do "casamento" das suas palavras com a música :)

    Um beijinho, Princesa

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    1. Coincidências... estava a ouvir, quanto «tropecei» no poema. Também achei que «casavam» bem. :)

      Obrigada.

      Outro beijo, Miss Smile.

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