domingo, 26 de março de 2017

para onde vão as palavras quando não precisamos delas?

Em pequena, tentava adivinhar o que acontecia às palavras dos livros quando os fechava.
E pensava que provavelmente fugiam, desapareciam e as páginas ficavam brancas, imaculadas, sem vestígios das palavras que ainda há pouco lia.
E desapareciam simplesmente porque não as estava a ver, porque, acabada a leitura, não fazia sentido continuarem ali.
Com o livro fechado,  as palavras não precisavam de ficar ali presas e podiam seguir o seu caminho.
As palavras não eram, então, simples manchas de tinta a transmitir-me ideias, histórias, fantasias.
As palavras tinham vida própria, ganhavam fôlego e iam, numa azáfama, aparecer num outro livro de uma outra criança que delas necessitava.
Lá no fundo, talvez já soubesse que as palavras nunca serão totalmente nossas, mesmo quando as tentamos prender com a voz, com a leitura, com a escrita. 
Criámos as palavras e com elas lemos o mundo, mas elas são autónomas, ganham asas de cada vez que as deixamos [por vezes, até antes de as deixarmos ir] , ficando por aí a pairar à espera que um de nós, mais uma vez, as tente agarrar, num interminável jogo da apanhada.



 
Imagem daqui.

sábado, 11 de março de 2017

as últimas vezes

    Para S.

   De cada vez que chego junto de ti, pergunto se será essa a última vez. Mas já houve tantas, tantas últimas vezes contigo. Houve a última vez em que pudemos dialogar, a última vez em que almoçámos juntas, a última vez em que nos abraçámos, a última vez em que te vi feliz, apesar do muito por que passavas. A energia que tinhas, apesar da tua luta de anos, a felicidade que transmitias, apesar das dores e do sofrimento são uma lição para todos. A força e a vontade de viver às vezes não são uma escolha. A vida só te deu esse caminho. Sobreviver até que aquilo que te obrigava a esse caminho acabar por te vencer.

  Para mim, tu estás cá desde sempre,  não me lembro do mundo sem ti. Nem sempre estivemos perto, nem sempre estivemos presentes - mas és a única a dar-me aqueles abraços  (naqueles momentos  de despedida...) e  aquela com quem  podia  chorar à vontade sem  me sentir excessiva. Podia. A última vez  já  aconteceu. Já  não posso  chorar à  tua  frente,  não te  posso fazer isso. Deixar que  vejas as minhas  lágrimas  seria  um sinal  de que tudo está perdido - e está -, de que não há esperança - e não há - e, embora  saiba  isso, não te  posso  dar  essa certeza, tenho  de deixar que uma réstia de dúvida aligeire - se isso é possível - os teus dias.

  Há que  lembrar, no  ciclo dos anos, a  tua  força  quase  inesgotável e o  teu sorriso, para  que  a lembrança  que temos  de ti  não  se  resuma  às  últimas vezes, ao sofrimento, à inação, à dor e à solidão, porque no fim, por mais acompanhados que estejamos, estaremos sempre a sós com o nosso destino. E ele é ainda mais terrível quando salta uma geração.